PAIS X FILHOS: O CONFLITO
A necessidade de manter a tradição, de os pais imporem os elementos hierárquicos na educação dos filhos, encontra por vezes uma forte barreira na vontade da busca por caminhos originais e próprios de condutas por parte dos descendentes. A desavença entre pais e filhos tem, pois, sua gênese no tênue limiar entre as vontades de cada um. Elemento de degradação familiar, este conflito apresenta-se em discursos de diferentes gêneros. Desde as narrativas que tentam delinear o surgimento e formação humana: mitos gregos e histórias bíblicas cristãs, ou as tragédias com sua forma catártica de conscientização do ser até as narrativas contemporâneas que refletem a condição do ser atual, a rivalidade entre pais e filhos sempre se apresenta como um duelo, um conflito entre a tradição e o novo, a sabedoria da experiência e a imperiosidade da vontade.
Em Lavoura Arcaica (1989), Raduan Nassar narra a degradação de uma família a partir da saída e retorno do filho André à casa dos pais. Reprimido por não se adequar à conduta austera infligida a todos pelo patriarca, André sentindo-se diferente - ou por ser diferente devido a não adequação aos preceitos impostos pelo pai - deixa o lar e é resgatado pelo irmão, retornando ao convívio familiar.
Em uma narrativa não linear, acompanha-se, através das recordações e confissões de André ao irmão, Pedro, e, posteriormente, pelo seu retorno ao lar, seu desconforto em um ambiente regido pela força atávica da tradição. Guiando-se por uma conduta reta, calcada em bases fortemente religiosas, Iohána, o patriarca, conduz a família sob a conduta rígida do trabalho, amor à família e respeito aos pais e a Deus. Desde sempre se sentido à parte dessa conduta, André, o filho proscrito- como assim posiciona-se- mantem uma divergência aos ditames paternos, levando essa resistência aos limites da desobediência e desafio aos preceitos: familiares, sociais e religiosos. Assim, ele adota uma conduta secretamente marginal - que culmina com sua saída de casa -, apaixonando-se, inclusive, pela própria irmã, Ana - que finda assassinada pelo pai, em um acesso de cólera ao tomar conhecimento do sentimento incestuoso entre os filhos. E é assim se posicionando que André explode para o irmão a sua subversiva posição:
“... mas na corrente do meu transe já não contava sua dor misturada ao respeito pela letra dos antigos, eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina (a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e só o meu ponto de vista...” (p.111).
O abandono do lar em busca de uma melhor adequação de si com o mundo e o acolhimento paterno, na volta, cheio de afeto e festejos, leva a uma identificação da obra de Raduan com a parábola O Filho Pródigo, analisada minuciosamente pelo filósofo Humberto Rohden, em Sabedoria das Parábolas (2005). Como o pai da parábola: “comamos e celebremos um festim; porque este meu filho estava morto, e ressuscitou; andava perdido, e foi encontrado” (p.21), também Iohána saúda a volta do filho com alegria: “... a alegria e júbilo nos olhos de meu pai, que dali a pouco haveria de proclamar para os que o cercavam que ‘aquele que tinha se perdido tornou ao lar, aquele pelo qual chorávamos nos foi devolvido’” (p.150).
Essa identificação, no entanto, se circunscreve apenas à saída e retorno da personagem. O que acontece entre o ir e vir de André em tudo difere do aprendizado necessário para ter feito de sua ausência uma aprendizagem de vida como aquela experimentada pelo jovem filho que abandona o pai em busca de vivência no mundo, narrada por Jesus nas parábolas bíblicas. Segundo Rohden, houve aprendizagem e amadurecimento nas experiências vividas pelo filho pródigo; sua volta, então, representa a conclusão de um aprendizado:
“... o ponto de sua volta não coincidiu com o ponto de sua partida; não fechou simplesmente um círculo, abriu uma grande espiral, cujo termo de chegada está imensamente acima do termo de partida (...) Entre a partida e a chegada houve uma gigantesca evolução – a jornada cósmica que vai da culpa através do sofrimento até a redenção” (p.25).
André, por outro lado, retorna com as mesmas convicções de sua partida. Buscado pelo irmão, deixa-se resgatar passivamente por ele. E logo fica claro para o pai que sua conduta continua paralela aos preceitos do lar: “Não foi o amor, como eu pensava, mas o orgulho, o desprezo e o egoísmo que te trouxeram de volta à casa!” (p.169). No confronto decisivo com o pai, rende-se, em uma lânguida entrega. Porém, permanece, intimamente, contrário à filosofia deste.
As noções de comportamento estabelecidas por Iohána contêm uma sabedoria secular, não só por ser enraizada nos sermões com teor religioso, mas por estar presente sempre a figura do avô. Em diversas passagens, a narrativa foca a importância deste como pilar da estrutura familiar, sugerindo uma continuidade da tradição e uma forma de aprendizado que só através dessa conduta atávica de aceitação da vida pode ser adquirida. A admissão do saber ancestral é recebida de forma pacífica e voluntária, e a perfeita convivência se dá pela obediência cega que filho devota ao pai:
“... na doçura da velhice está a sabedoria, e, nesta mesa, na cadeira vazia da outra cabeceira, está o exemplo: é na memória do avô que dormem nossas raízes, no ancião que se alimentava de água e sal para nos prover de um verbo limpo (...) nenhum entre nós há de apagar da memória a formosa senilidade dos seus traços; nenhum de nós há de apagar da memória sua descarnada discrição ao ruminar o tempo em suas andanças pela casa (...) cultivada com zelo pelos nossos ancestrais, a paciência há de ser a primeira lei desta casa, a viga austera que faz o suporte das nossas adversidades e o suporte das nossas esperas...” (p.60)
Forma milenar de explicação da formação do mundo e das origens dos seres, a mitologia grega se apresenta como forte referência de entendimento do comportamento humano. Em sua Teogonia (2003), Hesíodo canta o que poderíamos entender como registro primeiro da composição dos elementos que estruturariam o cosmos e a humanidade. Na base dessa genealogia, a desavença entre pai e filho se apresenta como fator fundamental da organização do posicionamento dos elementos primordiais do universo.
Urano, personificação do Céu, é um elemento fecundo na formação dos seres. Filho de terra (Geia), com ela uniu-se e teve inúmeros filhos. Esta, entretanto, cansada do abraço fecundo de Urano pediu aos filhos que a protegessem do esposo. Somente Crono aceitou a missão, e com uma “foicinha” que lhe fora dado pela mãe, cortou os testículos do pai, lançando-os ao mar, tomando depois o seu lugar no céu: “ Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra desejando amor sobrepairou e estendeu-se a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice longa e dentada. E do pai o pênis ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo para trás.” (p.115). Assim como seu pai, que a todos os filhos escondia mal estes nasciam, à luz não os permitindo, Crono, temendo o oráculo que predizia que um dos seus descendentes o destronaria, engolia todos os filhos que nasciam da sua união com Reia, sua irmã.
Mas, mais uma vez, através do ardil feminino aliado ao auxílio de um dos filhos, o pai é enganado, vencido e destronado por seu descendente. Fugindo para Creta, Reia, ao parir Zeus o esconde e entrega uma pedra envolta em panos para Crono, que não percebe o embuste. Zeus, crescido, droga o pai, forçando-o a vomitar os irmãos; estes unidos vencem o pai e os tios em uma luta que duraria dez anos, apossando-se totalmente e para sempre do poder, tornando-se o senhor absoluto do Olimpo:
“Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo
o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava
em vez da pedra o seu filho invicto e seguro
ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o
logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.
Rápido o vigor e os brilhantes membros
do príncipe cresciam. E com o girar do ano,
enganado por repetidas instigações da Terra,
soltou a prole o grande Crono de curvo pensar,
vencido pelas artes e violência do filho.” (p.133)
Esse sucessivo destronamento dos pais pelos filhos só terminaria com a revelação de Prometeu, que com seus dons de adivinho conhecia o segredo do oráculo que revelaria de qual união nasceria o filho que tomaria o trono de Zeus, como mostra Ésquilo, na tragédia Prometeu Acorrentado (1997): “... Zeus há de se dobrar. Núpcias se preparam que do poder, do trono, o arrojarão (...) Zeus prepara seu próprio adversário, prodígio dificílimo na luta.” (p.169). Evitando a união com Tétis, Zeus evita o nascimento do sucessor que o destronaria.
Essa forma violenta de sucessão entre os mitos gregos nem sempre acontece voluntariamente. Povos veneradores dos deuses e seus auspícios, os gregos tinham na sua cultura a reverência e obediência aos augúrios divinos. Tementes aos tortuosos caminhos do Fado, aceitavam de bom grado as advertências dos oráculos. A concordância com os auspícios significava sorte e fortuna àqueles que seguiam suas indicações. Dentro dessa perspectiva, dois são os heróis que tiveram, ainda no ventre materno, o anúncio de um destino fadado à destruição do genitor: Páris e Édipo. Ambos, poupados da morte pelo amor paterno, foram condenados ao desterro, exilados assim da sua posição real e de sua terra natal. Criado como Alexandre, um pastor de ovelhas, Páris se inscreve em uma competição, mesmo desconhecendo sua origem nobre: sai vencedor e é recebido de volta com alegria por seu pai, o rei Príamo. Contrariando a profecia, o rei recebe aquele que traria a sua destruição e de sua família, reino e povo - já que seria Páris o causador da guerra que destruiria Tróia, império de sua família.
Com componentes mais complexos no que se refere à rivalidade natural entre pai e filho, o mito de Édipo discorre sobre a inevitável realização do destino. Assim como o de Páris, o nascimento de Édipo trazia o mau augúrio da desgraça paterna. Retratada com maestria por Sófocles em três magistrais tragédias, a maldição dos Labdácias segue por gerações. Em Édipo Rei (2002) a narrativa acompanha a saga do filho fadado a ser um parricida. Poupado do sacrifício previsto, Édipo é abandonado num despenhadeiro, recolhido e adotado como filho por Políbio, rei de Corinto. Já adulto, toma conhecimento de sua pré-destinação: o duplo crime de matar seu pai e desposar a própria mãe. Tentando evitá-la, foge dos pais adotivos e assim, involuntariamente, caminha para a realização do oráculo. Perto de Tebas, cruza com um viajante ( Laio, rei de Tebas e seu pai), discutem e acaba por assassiná-lo. Estava cumprida a primeira parte da profecia. Édipo desvenda o segredo da esfinge que ameaçava a cidade, casa-se com Jocasta, a rainha - desconhecendo ser ela sua mãe - e, juntos, têm quatro filhos. A descoberta só aconteceria anos depois, na tentativa de descobrir o assassino de Laio (o rei assassinado) e assim livrar Tebas da maldição que lhe assola em forma de desgraças. Édipo segue incessantemente as pistas que o levaria a se descobrir na posição de criminoso, por parricídio e incesto. É através do vaticínio do adivinho Tirésias que a revelação vem à tona:
“... Afirmo-te, pois: o homem que tanto procura, com ameaças e proclamações, está aqui! Passa por estrangeiro, mas logo se verá que é tebano de nascimento, e tal descoberta lhe será fatal. Agora enxerga, mas cego se fará; é rico, e acabará mendigo; seus pés o levarão à terra do exílio, tateando o caminho com seu bastão. Ver-se-á ser ele, ao mesmo tempo, irmão e pai de seus filhos, filho e esposo daquela que lhe deu a vida, profanador do leito de seu pai, a quem tirou a vida.” (p.42).
Após o conhecimento do incesto, Jocasta comete o suicídio e Édipo fura os olhos. Em Édipo em Colono (2005), Sófocles apresenta a personagem já idosa, maltrapilha e exilada (exatamente como previra Tirésias), tendo como guia a filha Antígona e buscando abrigo do rei Teseu, em Colono. Expulso pelo filho Polinices, quando este estava no trono, Édipo tem agora o oráculo que o dispõe como proteção para a cidade que abrigar seus despojos humanos. Traído pelo irmão Eteócles, Polinices, prestes a invadir Tebas, busca a retirada da maldição paterna. Vítima da maldição que anos antes fora proferida contra seu pai, Laio, Édipo passa-a adiante alimentando o ódio entre si e seus filhos:
“Tais maldições já as pronunciei antes contra vós e invoco-as agora em meu auxílio, para que aprendais a reverenciar os vossos progenitores e não reputeis coisa indigna ser filhos de um homem cego, sendo vós tais filhos (...) Tu vai-te, maldito, de quem não sou pai! Recebe, malvado dos malvados, estas maldições que eu impreco contra ti: nunca possas conquistar com a lança a terra pátria, nem regressar jamais às planícies de Argos, antes morras às mãos de teu irmão e mates aquele por quem foste banido!” (p.96).
A maldição paterna é confirmada: Eteócles e Polinices matam um ao outro. Creonte, irmão de Jocasta, passa a ser o soberano, honrando o primeiro com honras fúnebres e punindo o segundo (pela traição ao invadir a pátria mãe) com a privação destas. A desobediência de Antígona - que, contra o édito real, propicia um funeral ao irmão, sendo assim condenada à morte - é o mote principal de Antígona (2002), também de Sófocles. No entanto, o confronto maior acontece entre Creonte e seu filho Hêmon. Este, não aceitando a condenação da prima e noiva, resiste ao despotismo paterno em um confronto que chega à morte. Porém, por um viés inverso ao de Édipo: o suicídio. Em um momento de obediência passiva, Hêmon aceita o rompimento de seu noivado, agraciando a alma paterna. Porém a dor que seu ato impugiria ao pai desmereceria as palavras deste:
“Tuas palavras mostram prudência, meu filho, que é preciso guardar no coração! A vontade paterna tudo nos provê. A grande razão que gera nos homens o desejo de que nasçam e cresçam em sua casa novos rebentos é a certeza de que estes, crescidos, combatam o seu inimigo e honrem o seu amigo, tal como o pai o faria. Aquele que tiver filhos inúteis apenas terá angariado para si motivos de desgosto, e para seus inimigos, motivos de zombaria. Não abandones, pois, meu filho, seduzido pelo prazer, ou por causa de uma mulher, os sentimentos que te animam... (p.103).
A resistência aos preceitos paternos, entretanto, nem sempre acontece de forma tão trágica. Mário de Andrade, em Melhores Contos (2000), no conto Peru de natal, através de um texto recheado de ironia, narra a grande vingança de Juca à memória da conduta rígida e austera na qual o pai trazia à família. O ato subversivo se caracteriza pelo prazer de proporcionar aos seus a alegria de saborear um peru na noite natalina. Prazer tão maior quando somado a satisfação de contrariar e apagar a imagem paterna. A afronta ao pai, que não se realizou em vida, acontece à sua memória. A vingança de Juca se dá na forma como pretende, doravante, conduzir os seus: oposta à seguida pelo finado pai. Numa das passagens mais sarcásticas do texto, o morto é comparado, aos olhos do filho, ao peru da ceia, ficando em franca desvantagem:
“Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora (...) Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentem,ente o partido de meu pai. Fingi, triste...” (p.139).
A desobediência filial ganha contornos fantásticos na insólita história O Barão sobre as árvores (1997), de Italo Calvino. Em uma trivial discussão com o pai à mesa, o jovem barão Cosme Chuvasco de Rondó se rebela contra o Sr. Barão e, em uma atitude tipicamente infantil, sobe para o cimo de uma árvore e, contra as ordens do pai, exclama que dali não descerá mais. Assim passa a viver sobre as árvores e de lá não desce nem depois de morto. Essa forma alegórica, que Calvino utiliza na obra, denota a dificuldade que existe na assimilação da geração vindoura dos preceitos passados por seus progenitores. Cosme, ao negar obediência ao pai, se aventura em uma nova experiência, inusitada e, até então, inviável. No entanto, cria uma nova conduta de vida, prova que pode se subsistir independente dos laços paternos. O pai, no entanto, permanece preso à cultura de seus antepassados, dificultando ainda mais a sua interação com seu tempo e o comportamento do filho:
“Mas agora, estando à mesa com a família, tomavam corpo os rancores familiaresm capítulo triste da infância (...) Começou uma série de berros, de birras, de castigos, de teimosias, até o dia em que Cosme recusou os escargots e decidiu separar sua sorte da nossa. Desse acúmulo de ressentimentos familiares só me dei conta depois: naquela época eu tinha oito anos, tudo me parecia um jogo, a guerra dos meninos contra os adultos era a de sempre, a de todos os moleques não percebia que a teimosia de meu irmão era algo de mais profundo.” (p.116).
Obediência e desobediência aos preceitos paternos ganham contornos sagrados naquela que talvez seja a representação máxima das conseqüências negativas da conduta transviada ao caminho reto mostrado pelo progenitor: o pecado original. Em Paraíso Perdido (2002), John Milton retrata, em forma de epopéia, a queda do homem do paraíso que traria conseqüências até os dias de hoje, devido à desobediência do primeiro filho. Adão e Eva, os primeiros humanos, filhos do Pai eterno, tiveram, por Ele concedido, o livre arbítrio e só uma proibição: era-lhes negado comer do fruto da árvore da sabedoria. Tentada pela serpente, Eva come do fruto proibido e leva Adão a cometer o mesmo ato. São castigados por Deus numa sina que se estende a toda sua descendência: “Bem sabiam os pais da estirpe humana, e recordar-se deveriam sempre, o preceito que o fruto lhes vedava, seja quem for o que comê-lo os inste – e que a desobediência os punha incursos na pena...” (p.358).
Porém, é graças a um ato máximo de bondade e submissão ao Pai, que ambos ficam isentos da morte. Assim, o filho de Deus, propõe pagar pelos pecados do casal. Na maior representação de desprendimento em nome do amor, o pai entrega o filho ao sofrimento - que aceita de bom grado a missão. O filho desce à terra encarnado na pele de Jesus, é crucificado, morto e ressuscita para ficar à destra do pai, confirmando a posição do filho que obedece à conduta e segue-a imposta pelo pai como a mais aceitável, louvável e repleta de prosperidade para o ser:
“Decretar-te pertence; ó Pai eterno,
E a mim, tanto nos Céus como no Mundo,
Cumprir tua vontade soberana,
De maneira que sempre em mim tu possas
Descansar plenamente satisfeito,
Em mim que sou teu filho muito amado.
Vou da Terra julgar os transgressores:
Mas tu bem sabes que, no próprio tempo,
O maior peso da sentença sua,
Seja qual for, em mim recair deve:
Diante de ti comprometi-me a tanto.” (p.360)
Assim, em um exemplo único, tomado como modelo de conduta, a postura do filho de Deus se mostra isolada do comportamento recorrente entre os filhos. Dispostos a impor sua condição e exercer sua liberdade, a geração vindoura rompe os preceitos paternos e busca assim delinear sua personalidade na tentativa de condução do caminho por meios e estilos próprios. A ausência de experiência por parte dos filhos e a inflexibilidade na postura por parte dos pais tornam esse rompimento sempre conflituoso, mostrando que a ausência de diplomacia no trato entre as gerações, a falta de diálogo e de flexibilidade supõe um choque que tende a se estender e que por vezes se faz necessário na formação do caráter dos filhos.
BIBLIOGRAFIA
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1989.
ROHDEN, Huberto. Sabedoria das Parábolas. São Paulo: Martin Claret, 2005.
CALVINO, Italo. Os Nossos Antepassados. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
HESÍODO. Teogonia a origem dos deuses. 5. ed. São Paulo: Iluminuras, 2003.
ALMEIDA, Guilherme de; TRAJANO, Vieira. Três Tragédias Gregas. São Paulo: Perspectiva, 1997.
SÓFOCLES. Édipo Rei / Antigona. São Paulo: Martin Claret, 2002.
__________. Édipo em Colono. São Paulo: Martin Claret, 2005.
ANDRADE, Mário. Melhores Contos. 8.ed. São Paulo: Global, 2000.
JOHN, Mílton. Paraíso Perdido. São Paulo: Martin Claret, 2002.
GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
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