sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O ESTRANGEIRO: A VIDA NO ABSURDO


Na literatura francesa, da década de trinta do século XX, encontram-se expressas por seus melhores escritores - Camus, Sartre e Malraux, entre outros - as ansiedades e perplexidades do homem perante o absurdo da vida, como afirma Barreto em um estudo sobre o pensador argelino, intitulado Camus vida e obra. Estes autores presenciaram concretamente, e não em termos teóricos, o fracasso do progresso, da ciência, da liberdade, da democracia, da razão e, finalmente, do próprio homem. Sentiram e construíram suas obras em torno desse sentimento denominado absurdo: a conclusão a que se chega quando, na busca de ordem e razão, acha-se somente desordem e irracionalidade. Em um mundo vazio de sentido, lançaram-se à procura de indicações que pudessem conduzi-los à criação de novos valores. Em suas páginas, retratavam a realidade cotidiana sem ideais de beleza, verdade, moralidade em uma literatura que já foi chamada de “literatura do desespero” – sem propriamente constituir-se em uma escola literária ou filosófica, mas no sentimento comum da vida em uma época contraditória e irreconciliável.


Essa literatura elimina as tradicionais diferenças entre o bem e o mal, o certo e o errado. Fiéis aos fatos, esses textos abstêm-se das idéias abstratas e mostram a vida como ela é: incoerente, ilógica e confusa, com personagens vivendo dentro de uma ambigüidade moral que os leva a tomadas de posição condenadas pela moral tradicional. Enfatizam, ainda, a responsabilidade humana - que não tem mais como amparo e desculpa o culto à entidade divina ou aos valores abstratos para justificar seu fracasso diante da vida. Cabe ao homem a responsabilidade no estabelecimento de uma nova ordem.


A obra de Albert Camus insere-se neste mundo. Para ele, o absurdo apareceu mais como um sentimento, relacionado com suas preocupações morais e teológicas, do que como uma categoria metafísica. E o meio utilizado por ele para expressar a relação absurda encontrada entre o homem e os mecanismos sociais foi a ficção. Como afirma Barreto, “Camus sempre insistiu que o romance era uma filosofia colocada em imagens, sendo o romancista um artista e não um filósofo. O romance é escrito para demonstrar alguma coisa, nem que seja o absurdo da existência humana (...) chegou mesmo a escrever que se alguém desejasse ser filósofo deveria escrever romances. A ficção aparece como suporte concreto do pensamento abstrato.” (p.144)


Em seu romance de estréia, O Estrangeiro, Meursault- a personagem principal- narra uma série de acontecimentos em uma vida rotineira e medíocre: a sua. Uma reviravolta acontece em seu cotidiano quando, aparentemente sem motivo, ele mata um árabe em uma praia deserta. A narrativa inicia-se com o relato da morte da mãe da personagem e finda com sua condenação à forca pelo gratuito assassinato de um árabe Entre este dois fatos, Meursault toma banho de mar, vai ao cinema, sente desejo por Marie, uma ex-secretária de sua firma, transita entre as pessoas de seu cotidiano, é julgado e condenado pelo homicídio. Para ele não há uma diferenciação entre esses atos. Ele nada sente de especial em relação a nenhum deles. Ele, aliás, não sente. Meursault só conhece sensações. Há tempos que nada o incomoda ou estimula. Meursault é um niilista.

Através da narrativa das experiências de Meursault, Camus mostra a dificuldade do homem perante sua existência. Esse ambiente de incoerência no qual a personagem está inserida reflete a falta de sentido da vida humana. Camus entende que a defasagem entre a vida real e as idéias do homem cria esse sentimento denominado por ele de absurdo. Este - o absurdo - nasce da relação entre o homem e o mundo, entre as exigências racionais do homem e a irracionalidade do mundo. A consciência de que tudo acabará com a chegada da morte cria uma dependência direta entre a ânsia de viver e o horror de morrer. Assim, a vida só pode ser aproveitada temporariamente. O contraste entre a permanência do mundo e a perecibilidade do ser limita o homem ao imediatismo do prazer físico. A intenção da narrativa é, pois, a descrição da experiência absurda, o movimento do homem dentro desse ambiente absurdo.


Dividido em duas partes, o livro mostra a dormência da personagem até o crime e seu despertar a partir do julgamento até o efeito da condenação. Na primeira parte, Meursault relata as experiências que se realizam por satisfazer suas sensações e necessidades básicas: comer, beber, dormir, fumar, etc. Leva uma vida sem sentido, reduzida à repetição cotidiana de gestos, pensamentos ínfimos e sensações grosseiras. Todo e qualquer sentimento que exija um pouco mais dele lhe é desconhecido.


“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.”. (p.45).

“Expliquei-lhe, no entanto, que o meu temperamento era este - meus impulsos físicos perturbavam com freqüência os meus sentimentos. No dia em que enterrara mamãe, estava muito cansado e com sono. De forma que não me dei muito bem conta do que se passava.”. (p.69).


Na segunda parte da obra, a personagem sai do seu torpor e começa a perceber a sua situação, entendendo a interpretação dada às suas próprias atitudes a partir das descrições feitas no julgamento. Meursault é visto como um ser abominável, um imoral. No entanto, sua atitude, pouco condizente com as regrais morais bem-vistas na sociedade, acontece mais por espontaneidade de conduta do que, necessariamente, por uma forma de conduta irregular voluntária. Não atirou no árabe por um motivo objetivo. Não percebe que não sofreu ou não demonstrou dor suficiente no enterro da mãe. Todos os seus atos, que, no julgamento, são apresentados à corte, a ele parecem inusitados, pois lhe custa perceber que é a sua vida que está sendo exposta - e a tudo assiste sem nenhuma reação emocional, a não ser o tédio:


“Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo. Durante as falas do promotor e do meu advogado, posso dizer que se falou muito de mim, e talvez mais de mim do que do meu crime.” (p.102).

“Eu ouvia e entendia que me consideravam inteligente. Mas não compreendia bem por qual motivo as qualidades de um homem comum podiam tornar-se acusações esmagadoras contra um culpado.” (...) “Não posso deixar de reconhecer, sem dúvida, que ele tinha razão. Não me arrependia muito do meu ato. Mas a sua obstinação espantava-me. Gostaria de tentar explicar-lhe cordialmente, quase com afeição, que nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã” (p.104).


A condenação ocorre mais pela insensibilidade pela morte da mãe, do que pelo crime de homicídio, e Meursault descobre na prisão algumas realidades como a esperança, a revolta e o amor à vida. Perante a espera do recurso à sentença, o problema que ele se coloca é: “o que me interessa neste momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída” (p.112). Subtraída a esperança com a impetração do recurso, ele se entrega a uma “alegria insensata”. A felicidade só pode ser aceita quando se pode aceitar toda a sua negação. Ela não advinha da ilusão do recurso judicial, e sim da certeza de sua rejeição. Dessa forma, ele recebe o capelão - após três recusas-, e num acesso de cólera, dando vazão à sua revolta, ele se nega a aceitar suas ofertas de remissão e de caridade espiritual. E assim encontra a paz: “como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziando de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo” (p.126). A negação da libertação eterna oferecida pelo capelão é um dos componentes da tentativa de superação da condição absurda, percebida por Meursault. É através da conscientização de sua situação que o homem absurdo encontra elementos para perseverar.


Esse homem absurdo, antes da revolta, é explicado por Camus nos ensaios de O Mito de Sísifo. No ensaio homônimo, se utiliza do mito do “mais astuto dos mortais” - que fora condenado pelos deuses a erguer uma rocha montanha acima para logo depois ela despencar até a base desta tendo que ser novamente reerguida por ele em um eterno castigo - como forma de alegoria do posicionamento do homem perante a consciência do absurdo da própria existência. Sísifo sabe que sua condenação é eterna, por isso é superior ao seu destino. “Este mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo?” (p.139). O absurdo e a revolta constituem a base do pensamento camusiano. Meursault, a partir do momento em que constata o absurdo da vida e se revolta, começa a ser feliz. O absurdo da condição humana não pode ser um fim, mas somente um começo.


Descrer nos valores vigentes e viver para negar a vida são aspectos fundamentais do niilismo. O niilismo, enquanto termo, surge na literatura no romance Pais e filhos, de Ivan Turguêniev. Em uma narrativa que põe em choque o tradicional e o novo, o herói do romance, Bazárov, se propõe a levar uma vida que tem a descrença nos valores vigentes como base. Entende a negação como forma destruidora - independente da ausência de ideais construtivos - de conceitos para ele ultrapassados, como amor, arte, religião e família, submetendo as tradições a uma ótica científica, em uma atitude revolucionária. Intelectual materialista, Bazárov é um médico estudioso das espécies - forma de compreensão do homem, que, claro está, é uma espécie sem subjetividade. Hospeda-se na casa do pai de Arkádi, seu amigo e discípulo ardoroso de sua filosofia inovadora. O anfitrião, Nikolai Kirsánov - assim como seu irmão Páviel - são os representantes da tradição (cada um à sua maneira), seja na visão do conservadorismo aristocrático ou da impossibilidade de entender a vida de forma tão crua e insensível como propõe o hóspede.


Bazárov rejeita o amor da família, tripudia da apreciação sensível de Nikolai à arte e à natureza - assim como ao posicionamento aristocrático de Páviel. Recusa qualquer explicação subjetiva e não científica dos atos humanos. Não reconhece nenhuma autoridade e, no entanto, aceita a sua pequeneza perante a continuidade do universo:


“O lugar insignificante que ocupo é tão minúsculo em comparação com o resto do espaço em que não estou e onde ninguém se importa comigo! A parcela do tempo que hei de viver é tão ridícula em face da eternidade, onde nunca estive nem estarei... Neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha e quer alguma coisa... Que estupidez! Que inutilidade!” (p.147).


A conduta severa a que se propõe, no entanto, não se constitui de bases sólidas. Bazárov quer “não acreditar”. É um ato voluntário, um exercício utópico com bases teóricas suas. Longe de ser um homem desprovido de sentimentos como Meursault, as proposições de Bazárov caem por terra quando conhece Eva Odíntsova e por ela se apaixona. Tenta veementemente lutar contra tão “tolo” sentimento e termina por cometer o “ridículo” ato de confessar o seu amor, sofrendo uma dupla humilhação quando é por ela rejeitado. Em um caminho inverso a sua forma de agir, volta para a casa dos pais, não pratica mais o hábito do isolamento e até dá continuidade ao trabalho do pai que sempre desprezou. Mas, desprovido de suas convicções, soçobra lentamente: “A febre de trabalho passou e veio um tédio e uma secreta intranqüilidade. Em todos os seus movimentos se percebia um cansaço estranho. Mesmo o seu andar, até então firme e resoluto, mudara completamente.” (p.202). Nessa conduta de entrega, é contaminado com tifo, por um doente que socorria, e morre - tendo como último desejo rever a amada, no que é prontamente atendido. A morte do herói, o sofrimento de seus pais e a felicidade completa das outras personagens encerram a obra com um traço fortemente romântico que nega toda a sua proposta niilista.


A obra de Turguêniev exerceu grande influência no pensamento de um dos maiores escritores do ocidente, o também russo Dostoiévski. Um de seus romances mais emblemáticos - e um dos mais cultuados romances modernos, Crime e Castigo, narra a dificuldade de Rodion Românovitch Raskólnikov em se adaptar ao meio em que vive. Ex-universitário, Raskólnikov apresenta desde jovem todos os sintomas de um neurótico: é avesso à convivência social, tem apreço por locais ermos, e vive enclausurado em um cubículo imundo. Transita, por toda a narrativa, em uma espécie de torpor, algo entre a divagação constante e o delírio. Profundamente sentimental, vive com as emoções à flor da pele, importa-se com a mãe e a irmã e faz constantes referências à imagem de “Deus”. Fortemente influenciado por superstições, vê, nos acontecimentos, elementos de predestinação, mostrando-se, assim, um fatalista, a ponto de creditar seus atos futuros a determinações sobrenaturais pré-estabelecidas. Calcula e sofre antecipadamente o crime que comete. Cria uma teoria na qual os homens são divididos em ordinários e extraordinários, e que a esta segunda parte cabe a evolução - ou pelo menos a contribuição para uma evolução - da humanidade. E que, se para isso for necessário alguma destruição ou derramamento de sangue, deve ser levada a cabo a empresa, permitindo-se o direito ao crime. Esses criminosos, no entanto, sendo homens extraordinários, têm inteligência e sensibilidade para sofrer moralmente o castigo do crime, independente de ir ou não para a prisão.


No intuito de descobrir até onde levaria sua própria teoria, e acreditando ser alguém com um propósito maior que a biológica subserviência perante o mundo, Raskólnikov arquiteta um plano de latrocínio contra uma velha usurária. No momento do crime, é surpreendido pela irmã desta e acaba também por matá-la, fugindo sem mesmo levar os pertences de maior valor da vítima. Constantemente acossado pelos interrogatórios do investigador de justiça, passa a viver um tormento. Mas o que lhe martiriza é entender que não conseguiu o seu propósito, e que, mesmo tendo cometido o crime, se perde em hesitação: “parece que ele imaginou ser um desses homens geniais... ou melhor, ele acreditou nisso por algum tempo. Sofreu muito, e continua sofrendo, por pensar que foi capaz de criar a teoria, mas não de passar sem hesitações por cima do obstáculo e que, portanto, não é um homem genial.” (p. 494).


O homicídio é um divisor de águas na vida de Raskólnikov, assim como na de Meursault. A diferença, entretanto, está no que os leva a cometer o ato. No caso de Meursault, é a ausência de propósito que o conduz - elemento básico de sua constituição-, a ação pela ação, desprovida de vontade emocional ou racional. O motivo, para Raskólnikov, encerra toda a conduta que poria sua vida em andamento, como mostra essa fala sua:


“... conveci-me de que o poder não é concedido senão àquele que ousa inclinar-se para o tomar: é necessário ousar. Então ocorreu-me, pela primeira vez na vida, algo que jamais alguém havia pensado. Desde o dia em que se me revelou essa verdade, clara como a luz do sol, quis ousar e matei... quis simplesmente praticar um ato de audácia; foi esse, Sônia, o móvel da minha ação (...) o simples fato de me propor a questão “Napoleão teria feito ou não?”já bastava para provar que não sou um Napoleão... Toda a tortura desse palavreado eu sofri, Sônia, e era isso que eu queria tirar de cima dos ombros: queria matar sem casuística, matar para mim, só para mim (...) Naquela ocasião o que queria saber – e o quanto antes é se eu era um piolho como os outros, ou um homem.” ( p.421).


A razão do crime foi a tentativa de superação da vida comum, e o castigo veio na constatação da sua vulgaridade. Raskólnikov segue os conselhos da prostituta Sônia e entrega-se à polícia. Cumpre pena, mas sua redenção chega através das palavras do evangelho ditas por ela- Sônia- e do amor que nasce entre os dois. Sete anos é o tempo que separa ambos da vida que pretendem. Vida diferente da decadência vivida por ela e da “angústia de ser” experimentada por ele.


O niilismo, no entanto, só é focalizado por Dostoiévski - ganhando expressão e força, caracterizando-se como um problema e uma marca do homem moderno - em Os Demônios e em Os Irmãos Karamazovi. Nesta, o autor retoma o crime como base narrativa. Mítia, Ivã e Aliócha - além do ilegítimo Smierdiákov - são os filhos de Fiódor Karamazov, homem libertino, desregrado e inconseqüente que foge completamente do perfil esperado de um pai. O crime nesta obra é o parricídio. O primogênito é acusado de matar o pai, com o qual disputava o amor da mesma mulher e a parte que lhe cabia na herança materna. Desregrado e explosivo, divide com o irmão Ivã o ódio pela figura grotesca de Fiódor. Intelectual e refinado, a personagem de Ivã traz o cerne de discussão da obra, ao se apresentar como um niilista antiteísta. E tem na figura do irmão caçula, Aliócha, habitante do mosteiro, de caráter e almas impolutos, seu antípoda.


Ivã é ateu. Acredita - ou diz acreditar - ser discutível a tese da criação humana pelo divino. Antes, para ele, o criador é o homem e Deus sua criatura. Partindo dessa hipótese, se questiona até onde o homem seria capaz de ir sem o impedimento divino. Seria capaz de ir até o fim. Seria livre, enfim, para todo e qualquer ato, defende ele. Seu conceito consiste na afirmação de que a ética é indissolúvel da fé. Sem a ameaça da condenação moral pelo divino, o homem seria livre e senhor de si. Dessa forma, para Ivã, “tudo é permitido”. Não é uma questão sobre Deus, e sim, sobre a imortalidade. O fundamento de sua moral não é exatamente Deus, mas a esperança e o medo:


“... sobre a terra nada existe que possa obrigar um homem a amar seus semelhantes, que isso não é absolutamente uma lei natural; e, se tal amor existiu até agora, foi apenas em razão da crença dos homens na imortalidade (...) nisso consiste a lei natural e que, se tirassem à humanidade a fé na vida extraterrena, ela perderia imediatamente, não só o amor, mas toda força indispensável à vida. Mais ainda: não haveria moral e tudo seria permitido, mesmo a antropofagia (...) para cada indivíduo que não crê em Deus nem na imortalidade, a lei moral da natureza deve transformar-se numa fórmula completamente oposta à religião, e que o egoísmo, a perversidade até, não só devem ser permitidos, mas aceitos como indispensáveis...” (p.75).


As idéias de Ivã acabam por influenciar Smierdiákov - verdadeiro autor do parricídio, que, livre da suspeita pública, termina por enforcar-se, deixando a culpa recair sobre Mítia. Ivã, atormentando-se com a “autoria moral” do crime, é acometido por uma extrema crise nervosa. O pai é assassinado; o filho ilegítimo torna-se um parricida e suicida. O primogênito é injustamente condenado. E o grande intelectual niilista, vítima de uma febre nervosa, padece quase à beira da morte. Todos os Karamazovi findam a obra castigados. À exceção de Aliócha, o herói da narrativa. A história encerra-se com seus conselhos, a um grupo de crianças, sobre a conduta do bem e da verdade para melhor apreciação da beleza da vida. E quando um deles o pergunta: “É certo o que ensina a religião: que ressuscitaremos dentre os mortos e que nos tornaremos a ver uns aos outros?”; ele assim responde: “ Sim, ressuscitaremos, tornaremos a ver-nos e nos contaremos alegremente tudo o que passou.” (p.747).


No capítulo Kirilov, de O Mito de Sísifo, Camus analisa o tema absurdo na obra de Dostoievski, a partir da personagem Kirilov, engenheiro niilista de Os Demônios que comete suicídio, e atribui a frase final de Aliócha como uma resposta à personagem. Kirilov, assim como Ivã, se questiona sobre o sentido da vida; seu suicídio é “lógico”, germina a partir da idéia clara e racional de deixar esta vida. Sente que Deus é necessário e que é preciso que Ele exista, mas sabe que não existe e nem pode existir, e isso é uma razão suficiente para se matar, analisa Camus. A experiência do absurdo e a atitude racional do homem diante do mundo é o cerne deste livro de Camus. Nele, discute a atitude do homem diante de algumas experiências existenciais, independente das diferentes formas destas vivências, e coloca a questão: Vale a pena viver? Trata, então, da relação entre o absurdo e o suicídio, da medida exata em que o suicídio é a solução para o absurdo. O suicídio é analisado sob duas formas: o suicídio físico e o filosófico. O primeiro faz com que o indivíduo destrua o único meio de vivência do absurdo: ele próprio. No segundo, o individuo é afastado da razão e perde a lucidez, criando um mundo irreal onde o problema do absurdo passa a ser ignorado. O suicído é o grande consentimento, ao contrário da revolta. O homem revoltado é aquele que enfrenta o seu próprio absurdo. Assim, o problema se inverte; não mais se trata de saber se a vida vale ou não a pena ser vivida, e sim que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver. Viver é fazer que o absurdo viva. Por isso, uma postura filosófica coerente é a revolta, o confronto perpétuo do homem com sua própria escuridão. Dostoièvski, o criador, faz, ao final, uma escolha contra suas personagens. Por isso Camus, apesar dos temas e personagens absurdos, não vê a obra do russo como absurda, mas como uma obra que coloca o problema do absurdo. A obra absurda não dá respostas. E diz “o que contradiz o absurdo nesta obra não é seu caráter cristão, é o anuncio que faz da vida futura. Pode-se ser cristão e absurdo. Há exemplos de cristãos que não acreditam na vida futura.” (p.126).


Ainda sobre este tema, ele diz “Não é então um romancista absurdo quem nos fala, mas um romancista existencial.” (p.125). Camus foi conterrâneo e - durante certo período de tempo - amigo de Jean-Paul Sartre, considerado o pai do existencialismo moderno. Ambos trataram do absurdo, e por isso Camus foi muitas vezes citado como um existencialista. Mas há uma diferença entre o tipo de obra de cada um. Sartre criou uma filosofia existencialista. Camus faz um tratamento existencial do problema do absurdo. Os diferentes significados da palavra “absurdo”, na obra de ambos, é comentado por Sartre no livro de Barreto: “ A filosofia de Camus é uma filosofia do absurdo. Para ele o absurdo nasce da relação entre o homem e o mundo. Os temas que ele deduz daí são aqueles do pessimismo clássico. Não reconheço o absurdo no sentido do escândalo e desilusão que ele lhe atribui. O que eu chamo de absurdo é algo muito diferente: é a contingência universal de ser o que é, mas que não é a base do seu ser; o absurdo é a injustificável e primordial qualidade da existência.” (p.46).


Sartre expressa sua teoria da contingência em seu primeiro romance, A Náusea. Em uma narrativa em forma de diário, relata a aventura de Antoine de Roquentin, um historiador que parte para a fictícia província de Bouville para escrever a biografia de um certo Marquês de Rollebon. A narrativa é uma expressão literária de uma antiga teoria sua: a teoria da contingência. É, pois, para ele, a contingência o essencial , já que a existência não é uma necessidade, é simplesmente um estar aqui. Desenraizado e solitário, sem amigos, parentes ou amantes, Roquentin, à parte seu trabalho de pesquisa e escrita, freqüenta o café da cidade - e, esporadicamente, a cama da proprietária -, perde-se em passeios e engalfinha-se no seu quarto em meio ao tédio e lembranças de uma amante do passado, Amy. Ao contrário de Meursault- que é dormente- sente uma freqüente e violenta sensação de náusea que provoca uma ruptura consciente com os outros e o mundo - e que o leva a constantes reflexões sobre si e tudo que o cerca. Ele descobre que o mundo é contigente, isto é, não é absolutamente necessário, que estamos demais nele, sobrando, por nada e para nada, gratuitos. Os objetos materiais permanecem estranhos a ele: “Os objetos não deveriam tocar, já que não vivem. Utilizamo-los, colocamo-los em seus lugares, vivemos no meio deles: são úteis e nada mais. E a mim eles tocam – é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles exatamente como se fossem animais vivos.” (p.24); sua vida só encontra solidez quando está morta e irrecuperável, no passado: “- Vivo no passado. Recordo tudo o que me aconteceu e ordeno-o. Assim de longe não dói, e quase nos deixaríamos enganar. Toda a nossa história é bastante bela. ‘Dou-lhe uns retoques e o que fica é uma seqüência de momentos perfeitos.’” (p.217); no presente, não tem nunca uma essência necessária: “...sempre me apercebera disso: eu não tinha o direito de existir. Surgira por acaso, existia como uma pedra, uma planta, um micróbio. Minha vida se desenvolvia ao acaso em todos os sentidos.” (p.124). Dessa vertigem ele só é arrancado pelos acordes da voz de uma negra em uma canção americana.


Ele desiste de escrever a biografia de Rollebon e tenta ainda escapar à náusea voltando a Paris à procura de Amy. Mas o contato finda em fracasso. Retorna então a Bouville e ao escutar mais uma vez a velha canção, tenta a salvação pela arte. O romance finda com sua decisão de escrever um romance:


“Naturalmente, no início seria um trabalho tedioso e cansativo; não me impediria de existir nem de sentir que existo. Mas chegaria o momento em que o livro estaria escrito, estaria atrás de mim, e creio que um pouco de claridade iluminaria meu passado. Então, talvez através dele eu pudesse evocar minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando exatamente nesse momento, nessa hora sombria em que aguardo, as costas encurvadas, o momento de subir no trem, talvez sentisse meu coração batendo mais rápido e dissesse a mim mesmo: “foi naquele dia, naquela hora, que tudo começou.” E conseguiria – no passado, somente no passado – me aceitar.” ( p.253).


A experiência radical da negatividade - centro do pensamento existencialista - é a via de acesso a algumas verdades sobre a vida humana, que o autor lança mão, através do diário de Roquentin, para uma meditação filosófica. A Náusea foi o primeiro contato de Camus com Sartre. Em uma crítica sobre o livro, o considerou admiravelmente bem construído, mas com um desequilíbrio entre as idéias da obra e as imagens de que lança mão. Os diferentes modos de tratar a noção de absurdo trazem, no entanto, laços de família intelectual que unem escritores distantes filosoficamente como ambos. A tentativa de Roquentin vai, assim, ao encontro do pensamento de Camus, que dedica um capítulo- no já citado livro de ensaios- à análise do homem absurdo, e reserva para o artista criador, mais precisamente o escritor, a categoria de herói absurdo por excelência. Para ele, é através da criação que se rompe a tensão que separa o homem do mundo. E é o romance a tradução mais fiel no plano estético do espírito da revolta, representando para os homens um meio de viver a tragédia e a alegria, o amor e o ódio - mesmo quando este trata da nostalgia, do desespero e do inacabado ele está dando forma e unidade a uma experiência existencial. E tem, na descrição de cada experiência frustrante, uma tomada de consciência e, assim, a confrontação do absurdo.




BIBLIOGRAFIA


CAMUS, Albert. O Estrangeiro. 26. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.

_____________. O Mito de Sísifo. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

TURGUÊNIEV, Ivan. Pais e Filhos. São Paulo: Martins Claret, 2006.

DOSTOIÉVSKI. Crime e Castigo. São Paulo: Martin Claret, 2004.

_____________. Os Irmãos Karamazovi. São Paulo: Martin Claret, 2005.

_____________ . Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2004.

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. 12. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

BARRETO, Vicente. Camus - vida e obra. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

MACIEL, Luiz Carlos. Sartre - vida e obra. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.

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