sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Maurice: a completude do amor


As dúvidas e dificuldades que permeiam a tentativa dos casais de manter um relacionamento e levar em frente o ideal romântico de viver um grande amor ganham contornos e impedimentos a mais quando se trata da forma peculiar de amar um ser do mesmo sexo. À parte as questões externas, como cobranças familiarares, sociais, de ordem moral ou religiosa, o indivíduo se vê diante da difícil decisão de aceitar a si como alguém à margem do comportamento padrão e, da não menos árdua tarefa, de ter o direito a exercer essa diferença. A falta de identificação com o mundo (que o rodeia) e a sensação de isolamento exacerbam o sentimento de solidão e a descrença na possibilidade de realização do amor. Essas questões que permeiam o amor entre homens trazem sempre elementos fortes que originam narrativas dramáticas, em que a busca do sentimento e da complementaridade sempre se efetiva, mas nem sempre atinge seu objetivo.


Maurice (2006), de E.M.Forster, narra a trajetória do jovem britânico estudante de Cambridge, Maurice, na Inglaterra do início do século XX, em meio aos seus questionamentos acerca de si e sua forma particular de buscar o amor. Com a perda precoce do pai, Maurice cresce entre a mãe e duas irmãs. Nesse mundo sem referencial masculino, é incitado a percorrer os passos do pai, e segue para Cambridge. Já consciente de suas diferenças, carrega a culpa e o medo dos que se sentem à margem da conduta padrão. Na universidade, conhece Clive e vive com ele um relacionamento platônico por três anos, quando este o abandona por descobrir uma atração por mulheres. Expulso da universidade, entra no mundo dos negócios de investimento. Paralela a essa vida burguesa, vive os tormentos de um desejo que não pode ser concretizado e que não é aceito pela sociedade. Por fim, passa a manter um relacionamento com Alec, guarda-caças de Clive. O romance acompanha a trajetória desse jovem angustiado pela sua diferença, sua auto-rejeição, sua tentativa de se entender e se encaixar em um mundo que aparentemente não foi feito para seres como ele.

Muitos são os autores que tratam da homossexualidade no campo literário. Diferentes épocas com diferentes situações são abordadas para mostrar que, quase sempre, a incompletude é predominante no amor entre iguais. Desde a antigüidade até os dias atuais, as narrativas que abordam o tema evidenciam a presença de fatores que impedem a completude desse tipo de relação. Seja por questões morais, sociais, religiosas ou até mesmo de morte, o fato é que o amor entre homens é, na literatura, fadado ao fracasso.


Em Memórias de Adriano (2005), Marguerite Yourcenar apresenta uma narração em primeira pessoa - na forma de carta-testamento - do imperador Adriano, que viveu no século II, para Marco Aurélio, o futuro imperador-filósofo. Adriano é retratado como governante ideal, admirador da cultura grega, protetor das artes e político preocupado com a vida dos escravos. No entanto, é a história de amor entre ele e o escravo grego Antínoo o foco da biografia romanceada. Sua posição e sua resistência à entrega fizeram com que não correspondesse aos anseios do jovem e apaixonado grego. Este, num ritual egípcio, temendo o momento da preterição, se mata, no auge da perfeição física, aos vinte anos, e perpetua sua condição de amante único na memória de Adriano.

Nesta obra, a morte acontece como impedimento maior, numa sociedade que não se escandalizava com a relação carnal entre homens: “Pouco importava que, terminado o dia, o imperador se entregasse à libertinagem de caserna em companhia dos jovens em quem encontrava atrativos ou beleza.” ( p.85). É, após a morte do amado, que Adriano entende a importância que este tinha em sua vida. Sublima-se, assim, o amor pelo mancebo grego. Anos após a morte de Antínoo, quando já no estado de enfermidade que o levaria à morte, Adriano recebe de Arriano, um dos seus governadores, uma carta que narra a sua passagem pela ilha que seria conhecida como: a ilha de Aquiles. Os habitantes da ilha acreditam que o grande herói da guerra de Tróia aparece aos navegantes, advertindo-os e protegendo-os dos perigos do mar. Em determinado trecho da carta, Arriano diz:


“O próprio Aquiles aparece em sonhos aos navegantes que visitam essas paragens. (...) E a sombra de Pátroclo aparece sempre ao lado de Aquiles. (...) Aquiles parece-me por vezes o maior dos homens, pela coragem, pela força da alma, pelos conhecimentos do espírito unidos à agilidade do corpo, e por causa do ardente amor do jovem companheiro. Nele, nada me parece maior do que o desespero que o levou a desprezar a vida e desejar a morte quando perdeu o bem-amado.” (p.262).


Um ardoroso admirador da cultura grega, Adriano vê nas linhas do companheiro um presente: “oferece-me um dom necessário para morrer em paz. Envia-me uma imagem da minha vida tal como eu teria querido que ela fosse.” (p.262). Diante dos fatos ouvidos, ele vê a possibilidade de tornar imortal seu amor e imagina sua vida com o companheiro morto. A imagem maior do amor que se consolida eternamente através da morte é discutida por Sócrates no Banquete (2003), de Platão. No seu discurso, Fedro entende que morrer um pelo outro é um ato que só é digno dos que verdadeiramente amam. Tal fato se comprova na glória maior de Aquiles, a quem os deuses cumularam de dignidades e enviaram à ilha dos Bem-aventurados: ”Se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais admiram e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo que é amado” (p.106).


A impossibilidade de juntar alma e corpo na consolidação do amor em vida também se mostra improvável por Manuel Bandeira nos versos do poema A arte de amar. Segundo o poeta modernista, o amor só poderia acontecer através da relação carnal. O encontro das almas só aconteceria fora deste mundo, ou numa junção espiritual com o divino. Como Aquiles com Pátroclo, Adriano teria com Antínoo, após a morte deste, a eterna ligação. O amor de ambos se encontraria assim livre de impedimentos. A morte seria a libertação, como preconizam os versos do poeta:


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Em Maurice, Platão e o seu Banquete aparecem como a base da relação incomum que se firma entre os dois jovens britânicos. Clive acreditava na contenção platônica: “Mas sem dúvida... a única desculpa para qualquer relacionamento entre homens é que este se mantenha puramente platônico” (p.248), e induzia Maurice, de natureza humilde, inexperiente e devotada, a aceitar a castidade. A relação assim se mantem por três anos, até que Clive descobre o seu interesse por mulheres. Separados, Clive encontra em Anne a esposa fiel e condescendente, a companheira ideal para um casamento nos moldes burgueses da época, puritano e hipócrita. A experiência com Maurice fica, então, atribuída à imaturidade e ele assume a relação heterossexual, contentando-se com o que ela representa socialmente, já que não há verdadeira sintonia dos desejos, sequer a intimidade comum a todo casal:


“Ele nunca a vira despida nem ela a ele. Ignoravam as funções reprodutivas e digestivas. Por isso jamais abordaria aquele episódio de sua imaturidade. Era algo que não podia ser mencionado. Não estava entre ele e ela. Ela é que estava entre ele e o episódio, e, pensando bem, não se ressentia disso, pois, embora não tivesse sido vergonhoso, fora um caso sentimental e merecia o esquecimento.” (p.167).


A fuga do desejo sexual por outro homem encontra no casamento heterossexual a perfeita acolhida. A priori, a satisfação do cumprimento da obrigação exigida pela sociedade e pela igreja de estabelecer família e preservar a espécie mostra a união ortodoxa como uma purgação da luxúria - forma assim entendida do desejo por companheiros do mesmo sexo. Em Giovanni (1987), James Baldwin narra o drama de David, americano de infância conturbada e vida adulta incerta que, na ausência da noiva, descobre um mundo fortuito na Paris da primeira metade do século XX. Entre tipos decadentes, homossexuais afetados e uma vida de boêmia desregrada, David conhece Giovanni, um italiano que trabalha como barman e passa incólume pelos apelos e tentativas de aliciamento da clientela e do patrão. Vive com ele uma grande paixão. No entanto, não suportando a intensidade do sentimento que mexe com os frágeis alicerces de sua condição, acaba, depois de muito hesitar, escolhendo o noivado com Hella. A insegurança de um mundo e forma de vida não de todo compreensível por David, reforça a sua decisão: “O animal que Giovanni despertara em mim jamais voltaria a dormir, mas um dia eu não mais estaria com Giovanni. E ficaria então, como todos os outros, a voltar e acompanhar todos os tipos de rapazes, rumando para avenidas escuras e ignotas, indo a lugares escuros e desconhecidos?” (p.90).

Neste caso, a dificuldade de manter a relação, por ser homossexual, é agravada pela questão social. Giovanni é pobre e sem instrução. Sem condição de aceitar sua situação, David, mesmo apaixonado pelo italiano, o abandona. O curioso é que Giovanni, que vinha de um casamento marcado pela tragédia da perda do filho, aceita por completo o amor que se lhe apresenta, mesmo sendo essa sua primeira experiência homossexual, enquanto David opta pelo fingimento do casamento, em uma atitude hipócrita e covarde (que trará como conseqüência a degradação de Giovanni até a morte), como mostra o desabafo de Giovanni:


“- Você quer deixar Giovanni porque ele faz você cheirar mal. Quer desprezar Giovanni porque ele não tem medo do fedor do amor. Quer matá-lo, em nome de todas as suas pequeninas e hipócritas moralidades. E você... Você é imoral. Sem comparação é o homem mais imoral que conheci em minha vida. Olhe, olhe o que fez de mim! Acha que poderia ter conseguido isto se eu não o amasse! É isto o que deve fazer ao amor?” (p.148).


As conseqüências da opção pelo casamento heterossexual é, por um outro viés, o tema abordado por Marguerite Yourcenar, em Alexis ou o tratado do vão combate (1971), romance epistolar em que o personagem título confessa, numa pungente e extensa carta à sua esposa, sua incapacidade de manter um casamento em que a desonestidade e a falta de desejo são proeminentes. Numa narrativa que aborda desde a gênese da sua descoberta sexual, Alexis mostra as dificuldades de aceitação do eu e os conflitos provenientes de suas preferências sexuais em um mundo voltado para o comportamento ortodoxo. Acreditando sofrer de uma doença passageira, ele se entrega ao casamento na esperança sincera de combater o que ele acreditava ser um vício: “Nunca, nem mesmo nos momentos do mais completo abandono, acreditei que minhas preferências anteriores fossem definitivas, ou simplesmente duráveis” (...) “Acontecia-me sonhar que uma jovem muito meiga, afetuosa e equilibrada, conseguiria um dia ensinar-me a amá-la” (p.98). Após alguns anos de angustiante tentativa, Alexis compreende que, como bem mostra o subtítulo da obra, o seu combate é vão. Percebe que seu erro incutia não nas vezes em que sucumbiu ao desejo, mas sim nas inúmeras tentativas de renegá-lo, renegando, assim, a sua essência e quase destruindo completamente sua integridade. Ciente do erro e suas conseqüências, e decidido a enfrentar a sua situação, termina o relacionamento através da carta que assim é concluída:


“Termino por lastimar-te sem, contudo, condenar-me severamente. É certo que te traí, mas não quis enganar-te. (...) Não tendo podido viver segundo os preceitos da moral estabelecida, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha própria. No momento em que decidimos renegar todos os princípios, é conveniente que conservemos, no mínimo, os escrúpulos. Assumi para contigo compromissos imprudentes que deveria ter mantido por toda a vida. Peço-te humildemente, o mais humildemente possível, perdão. Não por te deixar, mas por ter ficado por tanto tempo.” (p.124).



Já no romance de Forster, o rompimento que se dá é entre parceiros do mesmo sexo. Maurice, após o doloroso abandono por parte de Clive, percebe que a dor que sente é menos pelo rompimento da paixão do que pelo desesperador sentimento de ter sido novamente relegado à solidão. Ao encontrar um companheiro, tinha encontrado mais que a satisfação do amor correspondido, tinha encontrado um igual. Não era mais sozinho na condição que se lhe tinha sido imposta. Encontrara em Clive o que todos que vivem à margem buscam: alguém para dividir o fardo da diferença


”Ele continuou a viver, miserável e não compreendido, como antes, e cada vez mais solitário. Nunca é demais enfatizar essas palavras: a solidão de Maurice recrudesceu.” (p.146).

“Sim: no cerne de sua agonia estava a solidão. Por não ter o raciocínio rápido, levara algum tempo para perceber isso. O ciúme incestuoso, a mortificação, a fúria contra sua antiga estupidez – essas coisas acabariam passando e, após terem causado muito dano, de fato passaram. As lembranças de Clive também ficariam para trás. Mas a solidão continuaria. Ele acordaria e exclamaria, engasgado, “Não tenho ninguém!”, ou “Ah, Deus, que mundo!”.(p.141)


O sentimento de solidão se exacerba com a ilegalidade da condição de homossexual em um país que vê esse tipo de relacionamento como criminoso. Maurice, na tentativa de se livrar da “doença”, busca ajuda na medicina e até na hipnose, mas o máximo que consegue é um conselho para mudar de país, visto que a Inglaterra via esse tipo de relacionamento como crime. Ficção se confunde com realidade quando em algumas passagens da obra o nome de Oscar Wilde é citado: “Diga-me, em suas caminhadas por aí, você encontra tipos imencionáveis, da laia de Oscar Wilde?” (p.159). Wilde, escritor inglês, foi condenado pela justiça inglesa sob a acusação de homossexualismo após o escandaloso caso em que se envolveu com Lord Alfred Douglas. Em De Profundis (2004), carta escrita a Douglas, em sua temporada na prisão, e somente publicada após sua morte, o escritor narra a história “do amor que não se atreve a pronunciar o seu nome” que lhe trouxe a execração pública e culminou com sua sentença de prisão e trabalho forçado.


Essa aura de clandestinidade que cerca o mundo homossexual é retratada com maestria pelo escritor norte-americano Gore Vidal. A inicial busca pueril por um amor seguida de desencontros e decepções que levam o jovem a uma decadência moral e inevitável banalização do sexo, por vezes caindo na prostituição e no crime, é retratada em obras como o romance A Cidade e o Pilar (1989) e o livro de contos Um momento de louros verdes (1986). Na primeira, acompanha-se a busca de Jim por Bob, amigo de adolescência com quem teve um momento de intimidade sexual tão marcante que o acompanharia por toda a vida, até a dolorosa realidade do encontro entre ambos. Na tentativa do reencontro com o seu ideal adolescente de amor, Jim adentra o mundo homossexual que se desenrolava paralelamente nos Estados Unidos à época da Segunda Guerra Mundial. No livro de contos, Vidal retrata, de forma ácida, a conseqüente esterilidade do ser quando tem a possibilidade do sonho amputada. Esse desvio de conduta tem seu teor exacerbado quando o retrato da degradação moral é refletido na também degradação física. A perspectiva de uma velhice decadente, vivida de forma desonrosa e repugnante, distante da felicidade com um parceiro inicialmente contemplada, é também o impulso desesperador que leva Maurice, personagem de Forster, a tentar livrar-se de vez do “vício” que o corrompe. Uma experiência grotesca no trem foi o mote decisivo para a radical decisão:


“Estava ruminando com ar mal-humorado e sua expressão despertou suspeitas e esperanças no único outro passageiro que havia no vagão. Esse homem, corpulento e de rosto oleoso, soltou um suspiro cobiçoso, e Maurice, desprevenido, correspondeu. No momento seguinte, ambos se levantaram. O outro sorriu, o que fez Maurice derruba-lo com um soco. Foi duro para o homem, que era mais velho e cujo nariz sangrava sobre a almofada, e ainda mais duro, pois agora fora tomado pelo pavor de que Maurice puxasse o cordão de alarme. Ele vomitou desculpas e ofereceu dinheiro. Maurice, postado diante dele com o sobrolho cerrado, contemplou o próprio futuro naquele repugnante e desonroso retrato da velhice.” (p.158)


O medo da solidão encontra-se também presente no amor entre homens visto pela ótica do prazer sensual, foco do romance Querelle (1986), de Jean Genet, que narra as aventuras do marinheiro Querelle entre o bordel “La Féria” e o porto de Brest. Sedução e violência convivem em um ambiente lascivo de drogas e crimes. Ladrão, escritor e homossexual, Genet - que escreveu maior parte de sua obra na cadeia e foi condenado à prisão perpétua - transforma sua experiência de vida numa fascinaste narrativa literária, na qual homossexualidade, degradação e opressão sexual convivem num ambiente de crime e marginalidade. Em Querelle, o amor é efêmero, busca saciar o desejo físico, sórdido, não hesita em ser comprado, ilusório; por momentos vivencia-se, mesmo que falsamente, a satisfação da posse, o que não tira a essência maior da busca deste: o desejo de companhia. Em determina passagem, o narrador descreve a busca do prazer como uma forma velada de fuga da solidão:


Para os marginais que pego em meus braços, meu carinho e meus beijos apaixonados nas cabeças que acaricio, que recubro suavemente com meus lençóis, são apenas uma espécie de reconhecimento e admiração misturados. Depois de tanto ter me afligido com a solidão na qual me guarda minha singularidade, poderá ser, será possível que eu segure nu, que retenha apertados em mim esses rapazes, cuja audácia e dureza erguem tão alto, me derrubam e me pisoteiam? (...) Esse olhar severo, por vezes até quase desconfiado, de justiceiro mesmo, que o pederasta detém sobre um rapaz bonito que encontra, é uma breve mas intensa meditação sobre sua própria solidão. (p.11)



Em Bom Crioulo (2002), de Adolfo Caminha, romance naturalista que também relata de forma crua o mundo dos marinheiros e suas relações entre si, a atração entre iguais é justificada pelo determinismo, corrente científica que permeou o pensamento da época. Amaro sente-se atraído por Aleixo, faz-se seu protetor e amante, levado pelos impulsos da carne, como a satisfazer uma tara. Há desejo, contemplação do ser amado, mas a relação se efetiva mesmo no plano físico. O Marinheiro desenvolve um sentimento de posse e finda por matar o amante não por ciúme, mas por vingança já que não aceita a traição. A relação acontece pelo desejo de satisfação instintiva: “... era uma perseguição de todos os instantes, uma idéia fixa e tenaz, um relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo como se ele fora de outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!...” (p.34).


Já em Maurice, os sentimentos afloram e resistem, a despeito de tudo. Medo da solidão, sentimento de incompreensão, resistência aos seus desejos são sentimentos que perseguem o protagonista quando este aceita o convite de Clive para uma temporada no campo. Lá, onde ele menos espera, em quem menos suspeitaria, no guarda-caças da propriedade, Alec, Maurice encontra o companheiro ideal, sua complementação. O preconceito pela diferença de classes supera todos os medos anteriores, e Maurice não consegue ver na sua ligação com o empregado mais que um erro. No entanto, o sentimento fala mais alto e ele decide tudo arriscar:

“... então se virou para a Inglaterra. Sua jornada estava quase no fim. Partia para seu novo lar. Havia despertado o homem que havia em Alec e agora era a vez de Alec despertar o herói que havia em Maurice. Sabia qual era sua missão e que resposta devia dar. Deviam viver num mundo sem classes, sem parentes ou dinheiro; deviam trabalhar e não renunciar ao outro até a chegada da morte. Mas a Inglaterra lhes pertencia. Isso, de par com a camaradagem, era a sua recompensa. Eram deles o ar e o céu ingleses, não dos tementes milhões que possuíam caixinhas abafadas no lugar da própria alma. “ (p.243)


Num final eminentemente romântico, Maurice e o companheiro são contemplados com a felicidade, ou pelo menos com a tentativa dela. Indo contra todas as adversidades, a obra sugere a possibilidade de vencer os obstáculos, uma vez que encontrariam no outro a força necessária, numa ode que reverencia àqueles que realmente acreditam no amor e o reconhecem quando este se lhes apresenta. O final sugere a possibilidade de uma vida digna para os que amam um companheiro do mesmo sexo. Mostra a dificuldade, mas contempla a possibilidade. Estariam à margem, mas estariam nela juntos. Maurice e Alec não ousaram dizer o nome de seu amor, mas foram além, ao atreverem-se a vivê-lo.



BIBLIOGRAFIA


FORSTER. E. M, Maurice. São Paulo: Globo, 2006.
YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

_______________________. ALEXIS ou o tratado do vão combate. 4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1971.

BALDWIN, James. Giovanni. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

GENET, Jean. Querelle. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

VIDAL, Gore. A cidade e o pilar. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

__________. Um momento de louros verdes. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

BARBOSA, Francisco de Assis. In: Melhores poemas de Manuel Bandeira. 15.ed. São Paulo: Global, 2003.

WILDE, Oscar. De profundis. São Paulo: Martin Claret, 2004

PLATÃO. Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2003.

CAMINHA, Adolfo. Bom - Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2003.

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