sexta-feira, 2 de novembro de 2007

O Diário do Farol: A Face do Mal

Questão que perpassa conceitos de moralidade, ética e religião a dicotomia entre bem e mal é discussão de interesse milenar. Desde os relatos bíblicos da queda de Satã e do livre arbítrio do homem, das fábulas infantis, com seus finais moralizantes, da sabedoria do senso comum, às inúmeras obras artísticas e narrativas literárias, a discussão gira em torno da negatividade do mal e fator positivo do bem. Em uma perspectiva contrária, a personagem central de O Diário do farol, de João Ubaldo Ribeiro, incita o leitor a uma reflexão sobre o embasamento da essência humana no mal.

A obra é narrada por uma personagem voluntariamente anônima que se denomina o faroleiro, e que, aos sessenta anos de idade, vive isolada em uma ilhota deserta, inóspita e de difícil acesso, se dedicando a registrar, em um relato em forma de diário, suas memórias de uma vida calcada na vingança, no ódio e na ambição. Vítima da dor da perda da mãe, morta por seu pai, e da incessante violência paterna, física e psicológica, cresce com a determinação de vingar-se do pai assassino e de sua tia materna, irmã de sua mãe, parceira e cúmplice no crime, que passa a ser sua madrasta. Mostra-se com uma aptidão prazerosa em toda forma de vilania para atingir sua meta, desenvolvendo uma personalidade dissimulada e voltada para a farsa. Conta com o auxílio da sua mãe morta, que se mostra presente através de uma voz que acompanha e incentiva os atos do filho vingador: “... sou movido a escrever este relato, mais fortemente que pelos outros motivos, pela minha Vaidade em me considerar o pior dos seres humanos, o único, que eu saiba, que encarnou em si tudo o que lhe conveio, sem permitir que o filtro de qualquer valor erguesse impedimento. Veja bem, isso não me retira a solidão, antes a sublinha. Não fiz, nem de longe, tudo que de mau já se fez, mas teria feito, se houvesse oportunidade. Sou, portanto, para o espelho de minha absoluta Vaidade, o pior dos homens, o que cometeria o que de mais hediondo se pudesse conceber e chegou a uma quantidade difícil de igualar, não em número, mas em qualidade. Eu sou um grande mau, dir-se-ia” (p. 23).


Batiza o farol em que vive com o irônico nome de Lúcifer, o príncipe da luz, criado por Deus, que se revolta contra o Criador, formando um reino adverso. E intenta com seu relato (e a vaidade que o leva à escritura) incutir no leitor um incômodo, levando-o a entender sua própria solidão e loucura, condição, acredita ele, perene a todo e qualquer ser humano. Entende o homem como um ser solitário por nascimento, natureza, sentimento e vida, que teria uma curiosidade essencial sobre a confirmação secreta de sua sanidade. Os atos que aparentemente seriam mais repugnantes aos seus olhos e aos do mundo são interiormente praticados, encontrando na especulação da alma alheia o confronto com sua própria natureza de “assassinos, invejosos, devassos, traidores, egoístas, mentirosos, pusilânimes, canalhas, mesquinhos, hipócritas, adúlteros, santos neuróticos, antropófagos, parricidas, matricidas, infanticidas, estupradores, todos, todos, todos os que estão dentro dele mesmo.” (p.18).


Esse lado mal que cada homem traz dentro de si, e por condições externas impostas pela educação e convívio social, mantém reprimido, ganha um contorno fantástico na história do visconde Medardo di Terralba, em O Visconde Partido ao Meio, de Italo Calvino. Em certa guerra contra os turcos, nas planícies da Boêmia, o visconde é atingido por uma bala de canhão que o corta em dois no sentido longitudinal. A parte direita se mantém intacta, perfeitamente conservada, exceto pela enorme rasgadura que a separara da parte esquerda estraçalhada - esta, dada como inválida. É socorrido, e, após uma incrível intervenção cirúrgica, resiste, vivo e partido ao meio. Os habitantes de Terralba - após o retorno de Medardo à terra natal - logo perceberiam que não era só a aparência do mestre que havia mudado. De aspecto sombrio e taciturno, dedica-se a praticar pequenas maldades e, após a morte do pai, que morre em uma espécie de entrega desgostosa, Medardo assume o viscondado e inicia uma série de maldades pela região. Condenava culpados e inocentes à forca, incendiava bosques inteiros, vitimando pobres camponeses, e até mesmo o próprio castelo com sua ama dentro - ela que outrora lhe substituira a demanda de afeto causada pela ausência materna.


No entanto, a sua metade dada por pedida sobrevivera e volta em uma espécie de antípoda, sendo toda ela boas ações. Em um comportamento maniqueísta, o Mesquinho e o Bom seguem vidas de atos divergentes – um destrói e o outro repara - até o confronto final, no qual, bem e mal, tentando sobrepujarem-se, terminam por destruirem-se mutuamente. Após uma elaborada cirurgia, o visconde tem suas partes restauradas e reunificadas: “Assim, meu tio Medardo voltou a ser um homem inteiro, nem mau nem bom, uma mistura de maldade e bondade, isto é, aparentemente igual ao que era antes de se partir ao meio. Mas tinha a experiência de uma e de outra metade refundidas, por isso devia ser bem sábio.” (p.11).


Essa caricatura do uno que concentra em si virtude e vício, em medidas exatas e conflitantes, ilustra nitidamente o pensamento maniqueísta. O Maniqueísmo foi fundado na Pérsia, no século III, por Mani, também conhecido por Maniqueu, e tem como principal fundamento o dualismo absoluto. Defende que o universo está, assim, dividido em dois princípios básicos e absolutos: Luz e Trevas, ou Bem e Mal, tendo cada qual um reino próprio, que são distintos e separados entre si. O reino da luz é a manifestação do bem e do espírito; o das trevas, morada da matéria e lugar próprio de todo mal. A doutrina maniqueísta pregava um perene exercício de purificação que consistia em uma constante discriminação do bem e do mal, visando, através de uma conduta de vida reta e obediente aos preceitos maniqueus, libertar as partículas de luz aprisionadas na matéria, permitindo seu retorno ao reino da luz e, dessa forma, facilitando e apressando a separação definitiva entre bem e mal. Não podendo ser definitivamente destruído, já que é um princípio da realidade, o mal deve ser relegado ao mundo interior, o reino das trevas. Essa seria, então, a vitória maior que o bem pode almejar.


O principal nome ligado ao maniqueísmo foi o de Santo Agostinho, que durante um tempo foi um adepto de seus preceitos e, depois, um de seus mais ferrenhos detratores. Nascido em Tagaste, província de Numídia, atual Argélia, filho de pai pagão e mãe cristã, viaja a Cartago para aprimoramento dos estudos. Lá se desvia moralmente e leva uma vida licenciosa, repleta de prazeres, principalmente sexuais. Converte-se ao cristianismo aos vinte e dois anos, vindo a tornar-se bispo em Hipona. Agostinho influenciou toda a Idade Média e fez parte do que os historiadores da filosofia denominaram de Patrística, a filosofia dos padres da igreja. É, na realidade, uma apologia que sintetiza a filosofia grega clássica com a religião cristã. Suas experiências no campo dos estudos filosóficas foram intensas - além de seu contato com a experiência maniqueísta antes da adentrada ao mundo cristão. A questão do bem e do mal sempre foi uma preocupação em suas reflexões. Na obra Confissões, uma biografia em que contrasta sua vida de pecador com a graça divina, mas atento às preocupações filosóficas, a busca do entendimento da origem do mal é uma constante para o bispo de Hipona.

Através da hierofania, a manifestação do sagrado: Deus estando em todas as coisas, se nos revela através delas e de nos mesmos, agostinho internaliza o divino no humano. A alma seria então um receptáculo da luz divina e, ao mesmo tempo, a abertura do ser humano para Deus, já que a experiência da eternidade acontece nela. A essência e o sentido da vida humana, e de tudo que a envolve, assim se caracteriza. À exceção do pecado. Sendo o divino uno, ele não carrega o mal. Ao não entender o mal como outro ser poderoso, Agostinho afasta-se do maniqueísmo, e o classifica (o mal) como uma privação do bem. O mal fica excluído da idéia de ser. E não sendo, não pode competir com o bem- como pregava o pensamento maniqueu. No entanto, fica a questão da responsabilidade do pecado. Se o ser humano recebe a luz divina, como pode ele pecar? Agostinho justifica a questão com a teoria do livre-arbítrio. O homem foi criado por Deus livre e dotado de vontade, e quando caminha para o não-ser, se afastando assim do ser, aproxima-se do mal e comete os pecados. Através do pecado, o homem transgride a lei divina, já que, criado para ater-se mais à alma, prende-se ao corpo e a matéria, invertendo os valores da existência por cair na ignorância: “Indaguei o que era iniqüidade, e não achei substância, mas a perversão de uma vontade que se afasta da suprema substancia, de ti, meu Deus – e se inclina para as coisas baixas, e que derrama suas entranhas, e se intumesce exteriormente.” (p.158).

A questão moral do bem e do mal na retratação de Medardo dividido em duas partes antípodas é, no entanto, um reflexo bem menor do que a meditação sobre a divisão característica do homem contemporâneo, como deixa claro Calvino, no prefácio da obra: “Não, não quebrava mesmo a cabeça com isso, nem por um instante havia pensado no bem e no mal. (...) eu usara um contraste narrativo notório para evidenciar o que me interessava, isto é, a divisão ao meio.” (p.10). Este homem, chamado por Marx de “alienado”, classificado por Freud de “reprimido”, é um ser incompleto e mutilado; partido ao meio, aspira a um estado de completude. Inimigo de si próprio, carrega o contraste entre o que é e o que aparenta ser. Inspirou-se em O Médico e o Monstro, clássica obra de R.L.Stevenson em que o tema do dualismo do ser acontece através da excêntrica experiência científica do doutor Henry Jekyll. Consciente e intrigado com o dualismo que todo ser carrega dentro de si, e que o obriga à dissimulação, “ia-se cavando em mim, mais do que na maioria dos mortais, esse profundo fosso que separa o mal do bem e divide e compõe a dualidade da nossa alma.” (p.71), o médico consegue criar uma fórmula, por meio de experiências de laboratório, capaz de libertar o corpo de certas faculdades que compõem o espírito, obtendo uma nova forma corpórea que substituiria a primeira: “senti-me mais novo, mais leve, mais bem disposto, e experimentava, no meu íntimo, uma impetuosa ousadia; desenrolavam-se, na minha fantasia, desordenadas imagens sensuais, vertiginosamente; desfaziam-se os vínculos morais e se mostrava agora uma liberdade da alma que, entretanto, não era inocente. Considerei-me, desde o primeiro sopro da minha nova existência, de ânimo mais perverso, dez vezes mais iníquo, reintegrado na maldade original; e esse pensamento, naquela hora, prendia-me e deliciava-me como um vinho.” (p.73).


Edward Hyde personificava o lado selvagem do Dr.Jekyll, desde a aparência física até os atos, livre das correias, entregue à animalidade pura, capaz até de matar. Dessa forma, o médico matinha sua conduta impoluta, enquanto seu alter-ego dava vazão às necessidades selvagens da alma. A experiência, no entanto, lhe foge ao controle e a besta que Jekyll matinha a seu dispor passa a ser o seu senhor. A necessidade de transmutação passa a ser a busca de sua identidade original. Dominando completamente o corpo de Jekkyl, Hyde é encontrado morto no laboratório do doutor, que desaparecera nas entranhas da criatura.


Essa unificação de instinto selvagem e razão civilizada, que compõe uma quase dupla personalidade do homem contemporâneo, é narrada por Rubem Fonseca em Feliz Ano Velho. O perfil da violência e crueldade, em um mundo que estreita a distância entre a marginalidade e o aparente cotidiano pacato da classe média nas grandes cidades, é o mote das narrativas da obra. Nos contos Passeio Noturno I e II, a cisão do homem moderno é demonstrada através do excêntrico passatempo de um executivo que foge do tédio e do vazio de uma vida sem sentido e de uma família sem laços afetivos. Com uma rotina repetitiva, ele extravasa o estresse em um esporte radical. Nada de tiro ao alvo ou luta marcial. Com um Jaguar especialmente equipado: pára-choques salientes, com reforço especial duplo de aço cromado e um motor poderoso que vai de zero a cem quilômetros em segundos, saí à noite pelas ruas do Rio de Janeiro atropelando, com estilo, transeuntes, em uma espécie de vídeo game real. Na segunda parte do conto, é assediado por uma bela jovem e a convida para jantar; durante o encontro, tudo o entedia. Como todo homem, aguarda ansiosamente pelo que vem depois. Porém, diferentemente de todo homem, não será pelo sexo com ela que ele terá prazer: “Bati em Ângela com o lado esquerdo do pára-lama, jogando o seu corpo um pouco adiante, e passei, primeiro com a roda da frente – e senti o som surdo da frágil estrutura do corpo se esmigalhando – e logo atropelei com a roda traseira, um golpe de misericórdia, pois ela estava liquidada, apenas talvez ainda sentisse um distante resto de dor e perplexidade. Quando cheguei em casa minha mulher estava vendo televisão, um filme colorido, dublado. Hoje você demorou mais. Estava muito nervoso?, ela disse. Estava. Mas já passou. Agora vou dormir. Amanhã vou ter um dia terrível na companhia.” (p.71).


A personagem de Fonseca, ao contrário de Dr.Jekyll, tem total controle do monstro que tem dentro de si - criando inclusive uma perfeita sintonia, tirando dele o prazer que precisa para se manter no mundo racional. Diferente também da incompatibilidade do médico com sua fera - e da unificação equilibrada de ambas as partes do visconde partido ao meio - o faroleiro destrói as teorias maniqueístas - sendo talvez o que Santo Agostinho chamava de “aberração”- apresentando-se como um ser desprovido de qualquer sentimento bom.

Conforme as promessas de seu pai, é mandado a um seminário para as preparações necessárias à ordenação de um padre. Cheio de ódio e sonhos de vingança, encontra no mundo clerical não um ambiente de purificação, e sim, um ambiente propício para a degradação e proliferação de todo o cinismo, crueldade e torpeza que carregava em si. Consegue facilmente manter uma condição de liderança sobre os outros internos e também sobre alguns padres, utilizando-se da chantagem de informações facilmente adquiridas em um local onde a zoofilia e a sodomização de padres por internos – ato que também ele desempenhou como forma de obtenção de oportunidades - era ato corriqueiro: “Hoje sei que o seminário, como intuí desde o primeiro dia, era mais ou menos como uma penitenciária. Há muitos submundos nas penitenciárias e tudo se consegue, desde drogas a armas, a depender dos contatos que se fazem.” (p.60).


A descrição do internato como forma de denúncia de local de deformidade do ser, contrariando a visão convencional da sociedade, é também mostrada e é o foco da obra O Ateneu, de Raul Pompéia, uma caricatura sarcástica da vida no internato. A obra retrata o doloroso processo de transição da infância à idade adulta, através da personagem Sérgio, que é posta no internato pelo pai para sua lapidação de caráter. Os percalços, maus-tratos e provações a que Sérgio é constantemente submetido no internato, no entanto, fazem-no perceber, a duras penas, que se encontra em um campo hostil.

Com relações bem mais delicadas nas ligações de afeto entre os internos, que as descritas pelo faroleiro no seminário, as ligações homossexuais do internato são narradas com mais sutilezas, acontecendo mesmo em forma de amizade. Ainda que por interesse, Sérgio fora desenvolvendo relações ambíguas com alguns companheiros; fazia-se necessário obter a proteção dos mais fortes: “No recreio não andávamos juntos; mas eu via de longe o amigo, atento, seguindo-me o seu olhar como um cão de guarda. Soube depois que ameaçava torcer o pescoço a quem pensasse apenas em me ofender...” (p.85), levando-o mesmo a se posicionar nitidamente em uma postura totalmente feminina: “Confusamente ocorria-me a lembrança do meu papelzinho de namorada faz-de-conta, e eu levava a seriedade cênica a ponto de galanteá-lo, ocupando-me com o laço da gravata dele, com a mecha de cabelo que lhe fazia cócegas aos olhos; soprava-lhe ao ouvido segredos indistintos para vê-lo rir...” (p.123). Marco inicial do Naturalismo no Brasil, a obra de Pompéia, no entanto, mostra uma protagonista inocente na sua forma de se utilizar dos favores como forma de sobrevivência: “Por minha parte, entreguei-me de coração ao desespero das damas romanceiras, montando guarda de suspiros à janela gradeada de um cárcere onde se deixava deter o gentil cavalheiro, para o fim único de propor assunto às trovas e aos trovadores medievos.” (p.97).


O Ateneu é descrito como organização imperfeita, local de aprendizagem de corrupção e incitação da espionagem, intriga e humilhação, onde abundam as seduções perversas. Assim descreve o faroleiro o seminário e seu sistema: “Hoje sei que o seminário, como intuí desde o primeiro dia, era mais ou menos como uma penitenciária. Há muitos submundos nas penitenciárias e tudo se consegue, desde drogas a armas, a depender dos contatos que se fazem.” (p.60). A forma mais corrente de obtenção de favores era a sodomização dos padres pelos internos, o que possibilitava favores extraordinários. Corrompido voluntariamente pelo esquema, o faroleiro, que em matéria de sexo só conhecia a masturbação coletiva dos meninos do interior, se entrega à masturbação, felação, sodomização e sadismo nos padres, em passagens bem menos sutis que as de Sérgio no internato, deixando para trás a inocência.


O caminho para a degradação juvenil perpassa, também, a história de Noboru, personagem de O Marinheiro que Perdeu as Graças com o Mar, de Yukio Mishima. Noboru é um adolescente órfão de pai que vive com sua mãe, Fusako, jovem e bela proprietária de uma loja de artigos de luxo importados do ocidente, que leva um modo de vida cosmopolita e contrário às tradições japonesas, na cidade portuária de Yokohama. Quando sua mãe se envolve com o marinheiro Tsukazaki, uma figura idealizada aos olhos do garoto, por ver a vida no mar como uma forma de vida heróica, Noburu, que não se ressente da ausência paterna, por entender a paternidade como representação de acomodação odiosa, porque contrária a qualquer possibilidade de heroísmo, estabelece com ambos um triângulo de relacionamento. No entanto, Tsukazaki, que vivia à deriva entre uma monótona rotina de embarcadiço e a ausência de vínculos em terra firme, envolve-se emocionalmente com Fusaco, decidindo-se por abandonar a vida no mar para se casar com ela. O marinheiro torna-se assim, para o garoto, um ser abjeto por quem passa a alimentar sentimentos de ódio e vingança.


Toda essa trajetória sentimental que vai da idolatração ao desprezo, Noboru compartilha com um grupo de amigos com os quais divide uma espécie de sociedade secreta. Marcando seus encontros em diferentes pontos da cidade, os cinco garotos, liderados por um deles, o chefe, discutem seus ideais niilistas com a presunção de intelectuais que têm o ego acima dos demais: “... eram todos meninos pequenos, delicados, e alunos excelentes. A maior parte dos professores fazia rasgados elogios a esse grupo destacado, e até mesmo o apontava como um exemplo para alunos menos brilhantes.” (p.46). Eram todos filhos de “boas famílias” e traziam, incitados pelo chefe - que assim como Noboru, tinha apenas treze anos - a convicção de que a vida era um caos da existência em meio a uma sociedade destituída de significado, fazendo-se necessário tirar força da incerteza e do medo que o caos provoca para, assim, recriar a existência. E eram os pais, a escola e a sociedade, todos ‘cegos’, que fragmentavam sua capacidade ilimitada. Agindo como militantes de uma causa, pensavam e se preparavam para tudo, e, com o pensamento dos extraordinários, não recuariam diante da necessidade de derramamento de sangue: “O chefe sempre insistiu em que eram necessários atos como esses para encher os grandes vazios do mundo. Embora nada mais pudesse realizar isso, dizia ele, o assassinato encheria esses buracos abertos, da mesma maneira que uma fratura enche toda a face de um espelho. E então eles conseguiriam um poder real sobre a existência.” (p.53).


Era preciso um coração duro e frio para executar tal tarefa, caso esta se lhes apresentassem. A prova para Noboru viria na execução de um gato, atirado diversas vezes contra uma acha de lenha: “O gato bateu na lenha e voou novamente pela última vez. Suas patas traseiras se contorceram, traçando amplos círculos imprecisos no chão sujo, e em seguida pararam. Os garotos ficaram superalegres com o sangue respingando na lenha” (p.54). Como forma de mostrar de perto, e sem disfarces, a morte, o chefe, com uma tesoura, “desnuda” o gato, em uma minuciosa autópsia. À medida que o gato vai sendo escalpelado, tendo o endoderma exposto, com vísceras e órgãos sendo cortados no exame didático, Noboru, inicialmente confuso, se certifica do seu mérito: “eu o matei sozinho, posso fazer qualquer coisa, por mais terrível que seja.” (p.57). Aprovado pelo ritual que o livraria da hesitação infantil, ouve do mestre: “Você fez um bom trabalho. Acho que podemos dizer que isso o transformou realmente num homem.”. (p.57)

A desilusão do enteado com o padrasto chega ao extremo quando a mãe descobre que o garoto os espionava através de um pequeno buraco na parede de seu quarto e delega ao marido a punição do garoto. Tsukazaki, apesar de não amar Noboru realmente como filho, acredita nos instintos paternos, emoção só agora descoberta, e age de maneira condescendente, causando nojo a Noboru, que convoca uma reunião de emergência com o grupo, culpando o marinheiro de alta traição. Arquitetam um plano para atrair e sedar o marinheiro e, calculadamente protegidos por uma lei que deixa impunes atos de crianças menores de quatorze anos, executar o traidor, utilizando a prática já experimentada com o gato. O dever do grupo é pôr a engrenagem deslocada em seu devido lugar. E, para manter a ordem no vazio do mundo, a única saída seria pelo desfecho trágico, fazendo do marinheiro, assim, novamente um herói.


Assim como Noboru, o faroleiro teve sua tarefa de treinamento. Sendo seu pai o alvo de sua vingança, calcular e executar a morte de seus irmãos paternos foi para ele como uma simulação do que viria a ser o seu ato máximo. Desde o momento em que fora apresentado, em uma das férias do seminário, à sua irmãzinha, desenvolveu por esta um repúdio que só arrefeceu com a idéia de eliminar a criança. De volta ao seminário, pesquisa em um livro de agricultura venenos que adicionaria, em um plano milimetricamente calculado, aos pacotes importados de vitaminas com os quais os bebês eram alimentados. Tendo ganhado mais um irmão, executou sem hesitar o duplo fratricídio, deixando cair a culpa em Ana, antigo desafeto seu e amásia do pai – e também em Rosalva, única pessoa que lhe demonstrou afeto além da mãe, mas que nem por isso lhe fez recuar. Saiu impune. Ao menos legalmente, já que para o pai era ele o autor dos assassinatos, redobrando sobre o filho o ódio que sempre lhe nutriu. Mortos os irmãos e a madrasta (que falecera de parto), faltava a execução principal: o parricídio. No entanto, um novo objeto de ódio cruza o seu caminho.

Após as mortes dos irmãos, seu pai, por não suportar mais sua presença, designa que, nas férias do seminário, ele se hospede na paróquia da cidade. Com toda sua dissimulação, é logo bem aceito pela maioria, que já o designava padre, se destacando na condição de conselheiro espiritual das moças locais. Cria um esquema de sedução e libidinagem com todas, principalmente as noivas, fazendo da sacristia sua alcova. Uma dessas moças, no entanto, trouxe à vida do seminarista um novo desejo de vingança. Inicialmente mais uma noiva em busca de conselhos espirituais, Maria Helena fora também seduzida por ele, mas redimira-se e rompera os encontros de alcova na sacristia. Diante da atitude de recusa da moça, contra todos os seus hábitos e fria objetividade de encarar os fatos, cogitou abandonar o seminário, propondo-lhe casamento, num acesso de paixão com surtos de angústia e crises de choro. Recusada sua proposta, mergulha em um profundo sentimento de humilhação e derrota, em uma confusão de sentimentos e insegurança que cria ele já estar imunizado. Retoma sua racionalidade, mas passa a alimentar pela amada o mesmo ódio cultuado pelo pai, arquitetando inclusive sua indicação para a arquidiocese de Praia Grande, logo depois de sua ordenação, como forma de propiciar melhor as circunstâncias que cruzariam novamente seus destinos.


Contornando as dificuldades que seu excelente currículo e o nome de seu pai lhe traziam, por lhe dar condições de um futuro bem mais promissor, consegue, depois de uma encenação grotesca e patética perante os bispos sobre sua intenção de servidão humilde aos pobres da paróquia escolhida, ser aceito como o vigário de Praia Grande. Com o objetivo primeiro de estar próximo da Maria Helena, toma parte ativa em projetos em que ela colaborava, investindo dinheiro e promovendo iniciativas de caridade, aumentando mais sua popularidade. Sem nenhuma posição ideológica, inscreve-se oficialmente no grupo de conscientização política da qual ela era militante, que sofria seguidas denúncias de subversão, trazendo assim para sua vida dois elementos que seriam fundamentais para a conquista de seu objetivo: a política e a tortura.

Após o golpe militar, iniciou-se no país uma série de investigações, rumores de prisões e ‘viagens’ inesperadas rumo ao incerto para alguns. Neste clima de opressão, o jovem padre não hesita em ficar do lado do sistema, passando a ser um infiltrado no grupo. Em uma prisão simulada, é detido e torturado junto com o grupo subversivo de Maria Helena, que o acolhe como um membro oficial. Jejum, extração dentária, hematomas pelo corpo - feita a fantasia, é posto em uma cela fétida junto com os demais presos políticos e inicia sua tarefa de delação. Tendo acesso às sessões de tortura, descobre um prazer indelével: “Ah, que descobertas, que transes, que prazer misterioso me arrepiando desde as entranhas, em ver aquelas relações de amor entre os torturadores e os torturados, em ver como alguns cediam logo e outros resistiam até quase à morte ou ela própria. Havia uma ternura enviesada nas torturas, havia ouso dizer, quase orgasmos, pelo menos em mim, que agora ansiava por também participar das sessões.” (p.260).


Ganhando a confiança dos companheiros de cela, delata-os, e tem, por merecimento de causa, seu pedido atendido, passando, assim, de mero expectador a algoz. Sua primeira vítima é o companheiro de cela, Peçanha, e como marco inicial, elabora um ritual para aquele que seria seu primeiro assassinato in loco. Fazendo o amigo acreditar que seu fim está próximo, consegue uma broa de pão para ouvir-lhe a confissão e dar-lhe a comunhão. No entanto, o corpo de Cristo que lhe é dado vem em forma da morte por cianureto. Mata-o. Mas mata em Seu Santo Nome. E dá vazão a sua real natureza: “Meu desejo era o prazer novo, o prazer de matar que não tive com meus irmãos, mas agora estava à minha disposição, antes ocultado sob o tapete de uma consciência falsa e agora se abrindo apoteoticamente. Matar, matar, não pode existir maior exercício de potência na existência humana. Matar, ver morrer, extinguir uma vida, matar, torturar, matar!”. (p.268).

Liberto, pelo exercício de crueldade e também da falsa prisão, mantém por mais de dois anos contato com Maria Helena, nas reuniões clandestinas do grupo, alimentando seu desejo de vingança, só atenuado quando dividido pelo pensamento na execução de seu pai. O destino se interpõe na ordem desejada para suas execuções: vítima de um derrame, seu pai estava sem fala e movimento e era imprescindível a ação. Viaja para a fazenda e tem uma visita a sós com o doente. Este, sem condições de defesa, só pode assistir à declaração de ódio e confissão do fratricídio, assim como a anunciação de sua iminente execução: sentando-se sobre o rosto da vítima com um travesseiro, asfixia-o impiedosamente. E, iluminado pelo prazer da vingança cumprida, avisa aos enfermeiros que não incomodem o sono do doente e se vai.


Beneficiado pela herança e pela vingança feita, ocupa o vazio deixado pela execução do pai e a espera pela realização do desejo de eliminar a mulher que o desprezou, com o prazer da tortura. Levando uma vida dupla, se divide entre ser o padre vítima da repressão, muitas vezes preso, torturado, e o encapuzado, autodenominado Eusébio, o mais terrível torturador daquele complexo. Dividido entre o prazer da dor que infligia e aquela que lhe era, de bom grado, imposta, o ambivalente padre chega ao tão esperado momento do acerto de contas. Maria Helena e o marido foram torturados, psicológica e fisicamente, durante doze horas, até a morte. Amarrados de barriga para baixo, foram, perante a surpresa de descobrir no padre companheiro de subversão um traidor e algoz, espancados e estuprados. Um companheiro cuidava do marido, enquanto o padre se dedicava ao momento que tanto esperara: com requintes de crueldade e humilhação sexuais, finda por estrangular Maria Helena.


Tortura e estupro como forma de vingança são alguns dos alicerces, também, da fundação de Antares, cidade fictícia apresentada por Erico Veríssimo, em Incidente em Antares. Em uma sexta-feira 13 de 1963, um insólito acidente acontece na cidade e sete pessoas morrem. Os cadáveres ficam sem enterro devido a uma greve dos coveiros e, na condição de mortos insepultos, vagam pela cidade vasculhando a intimidade dos habitantes e denunciando os segredos dos mandantes locais. Unindo personagens fictícias a personalidades reais, o autor traça um panorama da história do Rio Grande do Sul e do Brasil, em uma visão crítica sobre seus problemas políticos, econômicos e sociais. A formação da cidade acontece paralela à acirrada disputa das duas maiores famílias locais: os Vacarianos e os Campolargos. Ódio e violência passam de geração em geração, entre as duas famílias. Cada ataque tem uma vingança retribuída em detalhes cada vez mais requintados. Como represália pela tortura e assassinato do irmão Terézio, Benjamim Campolargo ordena que Romualdo Vacariano seja amarrado a uma árvore, nu, com a barriga contra o tronco e as pernas abertas, e, que, perante uma platéia de mais de cem homens, seja violentado. A sodomização para os cavaleiros dos pampas gaúchos é um castigo pior que a morte: “Isso não se faz a um macho, coronel! Por que não mata logo o miserável?”. Tanto que, após liberto, Romualdo cambaleante e aparvalhado, urra e se joga barranca abaixo, entrando no rio e deixando-se afogar, nunca mais sendo encontrado.


O motivo da vingança de Benjamin reflete mais requinte e perversidade. Terézio, seu irmão, fora capturado por Xisto Vacariano e, por vingança pelo covarde assassinato de seu irmão Antão, é amarrado pelas pernas com a cabeça para baixo: Xisto mandou amarrar o prisioneiro pelas pernas e pendurá-lo no galho duma árvore, com cabeça a poucos centímetros do solo. Depois acercou-se de sua vítima, empunhando um grande funil de lata, cujo longo bico lhe enfiou às cegas no ânus, profundamente. Com a cara contraída de dor e vergonha, Terézio cerrou os dentes mas não deixou escapar o menor gemido (...) Todos compreenderam o que ele ia fazer quando gritou: “Tragam o tempero pra salada!”, e dois de seus homens, vindos do quintal do casarão dos Vacarianos, aproximaram-se, conduzindo com todo o cuidado, para não se queimarem, uma grande chaleira de ferro cheia de azeite em ebulição. (...) Xisto murmurou: “Sabes o que vou te fazer, sacripanta? Te incendiar as tripas”. A uma ordem sua, os dois homens começaram a despejar lentamente no funil todo o conteúdo da chaleira. Terézio Campolargo soltou um urro e começou a estrebuchar. (...) A agonia de Terézio foi de curta duração. Quando suas convulsões cessaram, Xisto olhou para o céu, aliviado. (p.34)



Em A Casa, de Natércia Campos, a tortura acontece igualmente como forma de vingança, desta feita, por um desafeto amoroso. A obra é narrada e protagonizada por uma casa de estrutura secular que relata suas memórias das vidas de gerações que acolheu sob seu teto, e do testemunho de nascimentos, vidas e mortes sucedidas ao longo do tempo, bem como dos hábitos, costumes, crenças, superstições e segredos dessa gente.

Em uma das histórias que acontecem dentro da história, um velho passador de gado narra a Bisneto, o bisneto do fundador da casa, a história do encoletado. Nas suas pastagens de gado, o velho passador presenciara, na fazenda de Capitão Longuinho, homem poderoso, de fortuna de origem incerta, violento, e que tinha como lei a sua vontade, um castigo a sua mulher e a um primo desta que haviam fugido juntos. Impedido de sair do local, pois todos haveriam de assistir ao castigo, o passador presencia a vingança do coronel.


A moça era esposa do Capitão. Com uma diferença de idade de mais de quarenta nos, fora obrigada ao casamento pelo pai em troca de léguas de terras e de gado. Fora castigada, pelo adultério, sendo espancada e tendo os cabelos tosquiados pelo velho, que a devolve à casa do pai. O amante, no entanto, tivera destino mais cruel e um uma tortura mais requintada. Fora despido e lhe vestiram um gibão informe, sem feitio, trazendo ainda o cheiro de sangue e carne decomposta de animal abatido. O couro cru, umedecido com água, foi vestido no rapaz, lhe sendo costurado bem justo, lhe encapando o corpo. Somente com a cabeça de fora, teve os membros e os ossos garoteados, à medida que o couro espesso, ao secar vagarosamente, ia encolhendo sob o calor do sol: “Encoletado naquele torniquete, imobilizado, eles o rolavam pelo chão. Assim oprimido, ele começou a ter a respiração sufocada pela pressão. O velho sentara-se na rede, na sombra do alpendre, com uma quartinha, e bebia no gargalo sempre que o infeliz gritava implorando água. Naquele dia não se arredou dali nem para comer. Assistiu a todo o padecimento daquele cristão. Foi morte lenta e suplicada daquele rapaz ali aprisionado, naquela couraça mal-cheirosa, ao sol, sendo arrochado, provocando nele, já mais pro fim, golfadas de sangue. O couro foi nele se curtindo, se enervando. Seus gritos insanos foram perdendo força, se espaçando até o desgraçado arroxear. A véstia fosca tornou-se sua mortalha sem dela poder mais apartar-se. Morreu a bem dizer com a alma dentro dele. O demônio do velho mandou jogá-lo no pasto para repasto dos bichos sem o direito sagrado do último repouso.” (p.42).


Assim como os rudes coronéis, o padre-torturador tem a honra lavada com sangue e o prazer da missão cumprida, após a morte de Maria Helena. Mas, passado o triunfo, o vazio lhe ocupou a alma. Os prazeres que a arte, o trabalho e o lazer trazem a um homem comum nada lhe diziam. Também o prazer da tortura não existia sem a perspectiva do clímax da vingança. A única forma encontrada foi alimentar a vaidade revivendo tudo através da memória. Aos poucos, se desliga do sistema militar, obtém dispensa canônica com um atestado de insanidade e compra a ilha: nasce o faroleiro. O relato finda não com hesitações sobre os feitos do passado, mas, em tom de dúvida entre suicídio e persistência em uma vida sem sentido, já que desprovida de qualquer perspectiva de realização para alguém que se nutria de ódio e desejo de vingança. A única certeza é a da ratificação da condição inerente ao ser humano, a da maldade. E sua incitação, através da narrativa, desafiando o leitor a aceitar a luz que, com seu farol, ele joga sobre a possibilidade de libertação de sua verdadeira essência: o mal.



BIBLIOGRAFIA


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CAMPOS, Natércia. A Casa. Fortaleza: Editora UFC, 2004.
O ESTRANGEIRO: A VIDA NO ABSURDO


Na literatura francesa, da década de trinta do século XX, encontram-se expressas por seus melhores escritores - Camus, Sartre e Malraux, entre outros - as ansiedades e perplexidades do homem perante o absurdo da vida, como afirma Barreto em um estudo sobre o pensador argelino, intitulado Camus vida e obra. Estes autores presenciaram concretamente, e não em termos teóricos, o fracasso do progresso, da ciência, da liberdade, da democracia, da razão e, finalmente, do próprio homem. Sentiram e construíram suas obras em torno desse sentimento denominado absurdo: a conclusão a que se chega quando, na busca de ordem e razão, acha-se somente desordem e irracionalidade. Em um mundo vazio de sentido, lançaram-se à procura de indicações que pudessem conduzi-los à criação de novos valores. Em suas páginas, retratavam a realidade cotidiana sem ideais de beleza, verdade, moralidade em uma literatura que já foi chamada de “literatura do desespero” – sem propriamente constituir-se em uma escola literária ou filosófica, mas no sentimento comum da vida em uma época contraditória e irreconciliável.


Essa literatura elimina as tradicionais diferenças entre o bem e o mal, o certo e o errado. Fiéis aos fatos, esses textos abstêm-se das idéias abstratas e mostram a vida como ela é: incoerente, ilógica e confusa, com personagens vivendo dentro de uma ambigüidade moral que os leva a tomadas de posição condenadas pela moral tradicional. Enfatizam, ainda, a responsabilidade humana - que não tem mais como amparo e desculpa o culto à entidade divina ou aos valores abstratos para justificar seu fracasso diante da vida. Cabe ao homem a responsabilidade no estabelecimento de uma nova ordem.


A obra de Albert Camus insere-se neste mundo. Para ele, o absurdo apareceu mais como um sentimento, relacionado com suas preocupações morais e teológicas, do que como uma categoria metafísica. E o meio utilizado por ele para expressar a relação absurda encontrada entre o homem e os mecanismos sociais foi a ficção. Como afirma Barreto, “Camus sempre insistiu que o romance era uma filosofia colocada em imagens, sendo o romancista um artista e não um filósofo. O romance é escrito para demonstrar alguma coisa, nem que seja o absurdo da existência humana (...) chegou mesmo a escrever que se alguém desejasse ser filósofo deveria escrever romances. A ficção aparece como suporte concreto do pensamento abstrato.” (p.144)


Em seu romance de estréia, O Estrangeiro, Meursault- a personagem principal- narra uma série de acontecimentos em uma vida rotineira e medíocre: a sua. Uma reviravolta acontece em seu cotidiano quando, aparentemente sem motivo, ele mata um árabe em uma praia deserta. A narrativa inicia-se com o relato da morte da mãe da personagem e finda com sua condenação à forca pelo gratuito assassinato de um árabe Entre este dois fatos, Meursault toma banho de mar, vai ao cinema, sente desejo por Marie, uma ex-secretária de sua firma, transita entre as pessoas de seu cotidiano, é julgado e condenado pelo homicídio. Para ele não há uma diferenciação entre esses atos. Ele nada sente de especial em relação a nenhum deles. Ele, aliás, não sente. Meursault só conhece sensações. Há tempos que nada o incomoda ou estimula. Meursault é um niilista.

Através da narrativa das experiências de Meursault, Camus mostra a dificuldade do homem perante sua existência. Esse ambiente de incoerência no qual a personagem está inserida reflete a falta de sentido da vida humana. Camus entende que a defasagem entre a vida real e as idéias do homem cria esse sentimento denominado por ele de absurdo. Este - o absurdo - nasce da relação entre o homem e o mundo, entre as exigências racionais do homem e a irracionalidade do mundo. A consciência de que tudo acabará com a chegada da morte cria uma dependência direta entre a ânsia de viver e o horror de morrer. Assim, a vida só pode ser aproveitada temporariamente. O contraste entre a permanência do mundo e a perecibilidade do ser limita o homem ao imediatismo do prazer físico. A intenção da narrativa é, pois, a descrição da experiência absurda, o movimento do homem dentro desse ambiente absurdo.


Dividido em duas partes, o livro mostra a dormência da personagem até o crime e seu despertar a partir do julgamento até o efeito da condenação. Na primeira parte, Meursault relata as experiências que se realizam por satisfazer suas sensações e necessidades básicas: comer, beber, dormir, fumar, etc. Leva uma vida sem sentido, reduzida à repetição cotidiana de gestos, pensamentos ínfimos e sensações grosseiras. Todo e qualquer sentimento que exija um pouco mais dele lhe é desconhecido.


“À noite, Marie veio buscar-me e perguntou se eu queria casar-me com ela. Disse que tanto fazia, mas que se ela queria, poderíamos nos casar. Quis, então, saber se eu a amava. Respondi, como aliás já respondera uma vez, que isso nada queria dizer, mas que não a amava.”. (p.45).

“Expliquei-lhe, no entanto, que o meu temperamento era este - meus impulsos físicos perturbavam com freqüência os meus sentimentos. No dia em que enterrara mamãe, estava muito cansado e com sono. De forma que não me dei muito bem conta do que se passava.”. (p.69).


Na segunda parte da obra, a personagem sai do seu torpor e começa a perceber a sua situação, entendendo a interpretação dada às suas próprias atitudes a partir das descrições feitas no julgamento. Meursault é visto como um ser abominável, um imoral. No entanto, sua atitude, pouco condizente com as regrais morais bem-vistas na sociedade, acontece mais por espontaneidade de conduta do que, necessariamente, por uma forma de conduta irregular voluntária. Não atirou no árabe por um motivo objetivo. Não percebe que não sofreu ou não demonstrou dor suficiente no enterro da mãe. Todos os seus atos, que, no julgamento, são apresentados à corte, a ele parecem inusitados, pois lhe custa perceber que é a sua vida que está sendo exposta - e a tudo assiste sem nenhuma reação emocional, a não ser o tédio:


“Mesmo no banco dos réus, é sempre interessante ouvir falar de si mesmo. Durante as falas do promotor e do meu advogado, posso dizer que se falou muito de mim, e talvez mais de mim do que do meu crime.” (p.102).

“Eu ouvia e entendia que me consideravam inteligente. Mas não compreendia bem por qual motivo as qualidades de um homem comum podiam tornar-se acusações esmagadoras contra um culpado.” (...) “Não posso deixar de reconhecer, sem dúvida, que ele tinha razão. Não me arrependia muito do meu ato. Mas a sua obstinação espantava-me. Gostaria de tentar explicar-lhe cordialmente, quase com afeição, que nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. Estava sempre dominado pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanhã” (p.104).


A condenação ocorre mais pela insensibilidade pela morte da mãe, do que pelo crime de homicídio, e Meursault descobre na prisão algumas realidades como a esperança, a revolta e o amor à vida. Perante a espera do recurso à sentença, o problema que ele se coloca é: “o que me interessa neste momento é fugir à engrenagem, saber se o inevitável pode ter uma saída” (p.112). Subtraída a esperança com a impetração do recurso, ele se entrega a uma “alegria insensata”. A felicidade só pode ser aceita quando se pode aceitar toda a sua negação. Ela não advinha da ilusão do recurso judicial, e sim da certeza de sua rejeição. Dessa forma, ele recebe o capelão - após três recusas-, e num acesso de cólera, dando vazão à sua revolta, ele se nega a aceitar suas ofertas de remissão e de caridade espiritual. E assim encontra a paz: “como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziando de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo” (p.126). A negação da libertação eterna oferecida pelo capelão é um dos componentes da tentativa de superação da condição absurda, percebida por Meursault. É através da conscientização de sua situação que o homem absurdo encontra elementos para perseverar.


Esse homem absurdo, antes da revolta, é explicado por Camus nos ensaios de O Mito de Sísifo. No ensaio homônimo, se utiliza do mito do “mais astuto dos mortais” - que fora condenado pelos deuses a erguer uma rocha montanha acima para logo depois ela despencar até a base desta tendo que ser novamente reerguida por ele em um eterno castigo - como forma de alegoria do posicionamento do homem perante a consciência do absurdo da própria existência. Sísifo sabe que sua condenação é eterna, por isso é superior ao seu destino. “Este mito só é trágico porque seu herói é consciente. O que seria a sua pena se a esperança de triunfar o sustentasse a cada passo?” (p.139). O absurdo e a revolta constituem a base do pensamento camusiano. Meursault, a partir do momento em que constata o absurdo da vida e se revolta, começa a ser feliz. O absurdo da condição humana não pode ser um fim, mas somente um começo.


Descrer nos valores vigentes e viver para negar a vida são aspectos fundamentais do niilismo. O niilismo, enquanto termo, surge na literatura no romance Pais e filhos, de Ivan Turguêniev. Em uma narrativa que põe em choque o tradicional e o novo, o herói do romance, Bazárov, se propõe a levar uma vida que tem a descrença nos valores vigentes como base. Entende a negação como forma destruidora - independente da ausência de ideais construtivos - de conceitos para ele ultrapassados, como amor, arte, religião e família, submetendo as tradições a uma ótica científica, em uma atitude revolucionária. Intelectual materialista, Bazárov é um médico estudioso das espécies - forma de compreensão do homem, que, claro está, é uma espécie sem subjetividade. Hospeda-se na casa do pai de Arkádi, seu amigo e discípulo ardoroso de sua filosofia inovadora. O anfitrião, Nikolai Kirsánov - assim como seu irmão Páviel - são os representantes da tradição (cada um à sua maneira), seja na visão do conservadorismo aristocrático ou da impossibilidade de entender a vida de forma tão crua e insensível como propõe o hóspede.


Bazárov rejeita o amor da família, tripudia da apreciação sensível de Nikolai à arte e à natureza - assim como ao posicionamento aristocrático de Páviel. Recusa qualquer explicação subjetiva e não científica dos atos humanos. Não reconhece nenhuma autoridade e, no entanto, aceita a sua pequeneza perante a continuidade do universo:


“O lugar insignificante que ocupo é tão minúsculo em comparação com o resto do espaço em que não estou e onde ninguém se importa comigo! A parcela do tempo que hei de viver é tão ridícula em face da eternidade, onde nunca estive nem estarei... Neste átomo, neste ponto matemático, o sangue circula, o cérebro trabalha e quer alguma coisa... Que estupidez! Que inutilidade!” (p.147).


A conduta severa a que se propõe, no entanto, não se constitui de bases sólidas. Bazárov quer “não acreditar”. É um ato voluntário, um exercício utópico com bases teóricas suas. Longe de ser um homem desprovido de sentimentos como Meursault, as proposições de Bazárov caem por terra quando conhece Eva Odíntsova e por ela se apaixona. Tenta veementemente lutar contra tão “tolo” sentimento e termina por cometer o “ridículo” ato de confessar o seu amor, sofrendo uma dupla humilhação quando é por ela rejeitado. Em um caminho inverso a sua forma de agir, volta para a casa dos pais, não pratica mais o hábito do isolamento e até dá continuidade ao trabalho do pai que sempre desprezou. Mas, desprovido de suas convicções, soçobra lentamente: “A febre de trabalho passou e veio um tédio e uma secreta intranqüilidade. Em todos os seus movimentos se percebia um cansaço estranho. Mesmo o seu andar, até então firme e resoluto, mudara completamente.” (p.202). Nessa conduta de entrega, é contaminado com tifo, por um doente que socorria, e morre - tendo como último desejo rever a amada, no que é prontamente atendido. A morte do herói, o sofrimento de seus pais e a felicidade completa das outras personagens encerram a obra com um traço fortemente romântico que nega toda a sua proposta niilista.


A obra de Turguêniev exerceu grande influência no pensamento de um dos maiores escritores do ocidente, o também russo Dostoiévski. Um de seus romances mais emblemáticos - e um dos mais cultuados romances modernos, Crime e Castigo, narra a dificuldade de Rodion Românovitch Raskólnikov em se adaptar ao meio em que vive. Ex-universitário, Raskólnikov apresenta desde jovem todos os sintomas de um neurótico: é avesso à convivência social, tem apreço por locais ermos, e vive enclausurado em um cubículo imundo. Transita, por toda a narrativa, em uma espécie de torpor, algo entre a divagação constante e o delírio. Profundamente sentimental, vive com as emoções à flor da pele, importa-se com a mãe e a irmã e faz constantes referências à imagem de “Deus”. Fortemente influenciado por superstições, vê, nos acontecimentos, elementos de predestinação, mostrando-se, assim, um fatalista, a ponto de creditar seus atos futuros a determinações sobrenaturais pré-estabelecidas. Calcula e sofre antecipadamente o crime que comete. Cria uma teoria na qual os homens são divididos em ordinários e extraordinários, e que a esta segunda parte cabe a evolução - ou pelo menos a contribuição para uma evolução - da humanidade. E que, se para isso for necessário alguma destruição ou derramamento de sangue, deve ser levada a cabo a empresa, permitindo-se o direito ao crime. Esses criminosos, no entanto, sendo homens extraordinários, têm inteligência e sensibilidade para sofrer moralmente o castigo do crime, independente de ir ou não para a prisão.


No intuito de descobrir até onde levaria sua própria teoria, e acreditando ser alguém com um propósito maior que a biológica subserviência perante o mundo, Raskólnikov arquiteta um plano de latrocínio contra uma velha usurária. No momento do crime, é surpreendido pela irmã desta e acaba também por matá-la, fugindo sem mesmo levar os pertences de maior valor da vítima. Constantemente acossado pelos interrogatórios do investigador de justiça, passa a viver um tormento. Mas o que lhe martiriza é entender que não conseguiu o seu propósito, e que, mesmo tendo cometido o crime, se perde em hesitação: “parece que ele imaginou ser um desses homens geniais... ou melhor, ele acreditou nisso por algum tempo. Sofreu muito, e continua sofrendo, por pensar que foi capaz de criar a teoria, mas não de passar sem hesitações por cima do obstáculo e que, portanto, não é um homem genial.” (p. 494).


O homicídio é um divisor de águas na vida de Raskólnikov, assim como na de Meursault. A diferença, entretanto, está no que os leva a cometer o ato. No caso de Meursault, é a ausência de propósito que o conduz - elemento básico de sua constituição-, a ação pela ação, desprovida de vontade emocional ou racional. O motivo, para Raskólnikov, encerra toda a conduta que poria sua vida em andamento, como mostra essa fala sua:


“... conveci-me de que o poder não é concedido senão àquele que ousa inclinar-se para o tomar: é necessário ousar. Então ocorreu-me, pela primeira vez na vida, algo que jamais alguém havia pensado. Desde o dia em que se me revelou essa verdade, clara como a luz do sol, quis ousar e matei... quis simplesmente praticar um ato de audácia; foi esse, Sônia, o móvel da minha ação (...) o simples fato de me propor a questão “Napoleão teria feito ou não?”já bastava para provar que não sou um Napoleão... Toda a tortura desse palavreado eu sofri, Sônia, e era isso que eu queria tirar de cima dos ombros: queria matar sem casuística, matar para mim, só para mim (...) Naquela ocasião o que queria saber – e o quanto antes é se eu era um piolho como os outros, ou um homem.” ( p.421).


A razão do crime foi a tentativa de superação da vida comum, e o castigo veio na constatação da sua vulgaridade. Raskólnikov segue os conselhos da prostituta Sônia e entrega-se à polícia. Cumpre pena, mas sua redenção chega através das palavras do evangelho ditas por ela- Sônia- e do amor que nasce entre os dois. Sete anos é o tempo que separa ambos da vida que pretendem. Vida diferente da decadência vivida por ela e da “angústia de ser” experimentada por ele.


O niilismo, no entanto, só é focalizado por Dostoiévski - ganhando expressão e força, caracterizando-se como um problema e uma marca do homem moderno - em Os Demônios e em Os Irmãos Karamazovi. Nesta, o autor retoma o crime como base narrativa. Mítia, Ivã e Aliócha - além do ilegítimo Smierdiákov - são os filhos de Fiódor Karamazov, homem libertino, desregrado e inconseqüente que foge completamente do perfil esperado de um pai. O crime nesta obra é o parricídio. O primogênito é acusado de matar o pai, com o qual disputava o amor da mesma mulher e a parte que lhe cabia na herança materna. Desregrado e explosivo, divide com o irmão Ivã o ódio pela figura grotesca de Fiódor. Intelectual e refinado, a personagem de Ivã traz o cerne de discussão da obra, ao se apresentar como um niilista antiteísta. E tem na figura do irmão caçula, Aliócha, habitante do mosteiro, de caráter e almas impolutos, seu antípoda.


Ivã é ateu. Acredita - ou diz acreditar - ser discutível a tese da criação humana pelo divino. Antes, para ele, o criador é o homem e Deus sua criatura. Partindo dessa hipótese, se questiona até onde o homem seria capaz de ir sem o impedimento divino. Seria capaz de ir até o fim. Seria livre, enfim, para todo e qualquer ato, defende ele. Seu conceito consiste na afirmação de que a ética é indissolúvel da fé. Sem a ameaça da condenação moral pelo divino, o homem seria livre e senhor de si. Dessa forma, para Ivã, “tudo é permitido”. Não é uma questão sobre Deus, e sim, sobre a imortalidade. O fundamento de sua moral não é exatamente Deus, mas a esperança e o medo:


“... sobre a terra nada existe que possa obrigar um homem a amar seus semelhantes, que isso não é absolutamente uma lei natural; e, se tal amor existiu até agora, foi apenas em razão da crença dos homens na imortalidade (...) nisso consiste a lei natural e que, se tirassem à humanidade a fé na vida extraterrena, ela perderia imediatamente, não só o amor, mas toda força indispensável à vida. Mais ainda: não haveria moral e tudo seria permitido, mesmo a antropofagia (...) para cada indivíduo que não crê em Deus nem na imortalidade, a lei moral da natureza deve transformar-se numa fórmula completamente oposta à religião, e que o egoísmo, a perversidade até, não só devem ser permitidos, mas aceitos como indispensáveis...” (p.75).


As idéias de Ivã acabam por influenciar Smierdiákov - verdadeiro autor do parricídio, que, livre da suspeita pública, termina por enforcar-se, deixando a culpa recair sobre Mítia. Ivã, atormentando-se com a “autoria moral” do crime, é acometido por uma extrema crise nervosa. O pai é assassinado; o filho ilegítimo torna-se um parricida e suicida. O primogênito é injustamente condenado. E o grande intelectual niilista, vítima de uma febre nervosa, padece quase à beira da morte. Todos os Karamazovi findam a obra castigados. À exceção de Aliócha, o herói da narrativa. A história encerra-se com seus conselhos, a um grupo de crianças, sobre a conduta do bem e da verdade para melhor apreciação da beleza da vida. E quando um deles o pergunta: “É certo o que ensina a religião: que ressuscitaremos dentre os mortos e que nos tornaremos a ver uns aos outros?”; ele assim responde: “ Sim, ressuscitaremos, tornaremos a ver-nos e nos contaremos alegremente tudo o que passou.” (p.747).


No capítulo Kirilov, de O Mito de Sísifo, Camus analisa o tema absurdo na obra de Dostoievski, a partir da personagem Kirilov, engenheiro niilista de Os Demônios que comete suicídio, e atribui a frase final de Aliócha como uma resposta à personagem. Kirilov, assim como Ivã, se questiona sobre o sentido da vida; seu suicídio é “lógico”, germina a partir da idéia clara e racional de deixar esta vida. Sente que Deus é necessário e que é preciso que Ele exista, mas sabe que não existe e nem pode existir, e isso é uma razão suficiente para se matar, analisa Camus. A experiência do absurdo e a atitude racional do homem diante do mundo é o cerne deste livro de Camus. Nele, discute a atitude do homem diante de algumas experiências existenciais, independente das diferentes formas destas vivências, e coloca a questão: Vale a pena viver? Trata, então, da relação entre o absurdo e o suicídio, da medida exata em que o suicídio é a solução para o absurdo. O suicídio é analisado sob duas formas: o suicídio físico e o filosófico. O primeiro faz com que o indivíduo destrua o único meio de vivência do absurdo: ele próprio. No segundo, o individuo é afastado da razão e perde a lucidez, criando um mundo irreal onde o problema do absurdo passa a ser ignorado. O suicído é o grande consentimento, ao contrário da revolta. O homem revoltado é aquele que enfrenta o seu próprio absurdo. Assim, o problema se inverte; não mais se trata de saber se a vida vale ou não a pena ser vivida, e sim que será tanto melhor vivida quanto menos sentido tiver. Viver é fazer que o absurdo viva. Por isso, uma postura filosófica coerente é a revolta, o confronto perpétuo do homem com sua própria escuridão. Dostoièvski, o criador, faz, ao final, uma escolha contra suas personagens. Por isso Camus, apesar dos temas e personagens absurdos, não vê a obra do russo como absurda, mas como uma obra que coloca o problema do absurdo. A obra absurda não dá respostas. E diz “o que contradiz o absurdo nesta obra não é seu caráter cristão, é o anuncio que faz da vida futura. Pode-se ser cristão e absurdo. Há exemplos de cristãos que não acreditam na vida futura.” (p.126).


Ainda sobre este tema, ele diz “Não é então um romancista absurdo quem nos fala, mas um romancista existencial.” (p.125). Camus foi conterrâneo e - durante certo período de tempo - amigo de Jean-Paul Sartre, considerado o pai do existencialismo moderno. Ambos trataram do absurdo, e por isso Camus foi muitas vezes citado como um existencialista. Mas há uma diferença entre o tipo de obra de cada um. Sartre criou uma filosofia existencialista. Camus faz um tratamento existencial do problema do absurdo. Os diferentes significados da palavra “absurdo”, na obra de ambos, é comentado por Sartre no livro de Barreto: “ A filosofia de Camus é uma filosofia do absurdo. Para ele o absurdo nasce da relação entre o homem e o mundo. Os temas que ele deduz daí são aqueles do pessimismo clássico. Não reconheço o absurdo no sentido do escândalo e desilusão que ele lhe atribui. O que eu chamo de absurdo é algo muito diferente: é a contingência universal de ser o que é, mas que não é a base do seu ser; o absurdo é a injustificável e primordial qualidade da existência.” (p.46).


Sartre expressa sua teoria da contingência em seu primeiro romance, A Náusea. Em uma narrativa em forma de diário, relata a aventura de Antoine de Roquentin, um historiador que parte para a fictícia província de Bouville para escrever a biografia de um certo Marquês de Rollebon. A narrativa é uma expressão literária de uma antiga teoria sua: a teoria da contingência. É, pois, para ele, a contingência o essencial , já que a existência não é uma necessidade, é simplesmente um estar aqui. Desenraizado e solitário, sem amigos, parentes ou amantes, Roquentin, à parte seu trabalho de pesquisa e escrita, freqüenta o café da cidade - e, esporadicamente, a cama da proprietária -, perde-se em passeios e engalfinha-se no seu quarto em meio ao tédio e lembranças de uma amante do passado, Amy. Ao contrário de Meursault- que é dormente- sente uma freqüente e violenta sensação de náusea que provoca uma ruptura consciente com os outros e o mundo - e que o leva a constantes reflexões sobre si e tudo que o cerca. Ele descobre que o mundo é contigente, isto é, não é absolutamente necessário, que estamos demais nele, sobrando, por nada e para nada, gratuitos. Os objetos materiais permanecem estranhos a ele: “Os objetos não deveriam tocar, já que não vivem. Utilizamo-los, colocamo-los em seus lugares, vivemos no meio deles: são úteis e nada mais. E a mim eles tocam – é insuportável. Tenho medo de entrar em contato com eles exatamente como se fossem animais vivos.” (p.24); sua vida só encontra solidez quando está morta e irrecuperável, no passado: “- Vivo no passado. Recordo tudo o que me aconteceu e ordeno-o. Assim de longe não dói, e quase nos deixaríamos enganar. Toda a nossa história é bastante bela. ‘Dou-lhe uns retoques e o que fica é uma seqüência de momentos perfeitos.’” (p.217); no presente, não tem nunca uma essência necessária: “...sempre me apercebera disso: eu não tinha o direito de existir. Surgira por acaso, existia como uma pedra, uma planta, um micróbio. Minha vida se desenvolvia ao acaso em todos os sentidos.” (p.124). Dessa vertigem ele só é arrancado pelos acordes da voz de uma negra em uma canção americana.


Ele desiste de escrever a biografia de Rollebon e tenta ainda escapar à náusea voltando a Paris à procura de Amy. Mas o contato finda em fracasso. Retorna então a Bouville e ao escutar mais uma vez a velha canção, tenta a salvação pela arte. O romance finda com sua decisão de escrever um romance:


“Naturalmente, no início seria um trabalho tedioso e cansativo; não me impediria de existir nem de sentir que existo. Mas chegaria o momento em que o livro estaria escrito, estaria atrás de mim, e creio que um pouco de claridade iluminaria meu passado. Então, talvez através dele eu pudesse evocar minha vida sem repugnância. Talvez um dia, pensando exatamente nesse momento, nessa hora sombria em que aguardo, as costas encurvadas, o momento de subir no trem, talvez sentisse meu coração batendo mais rápido e dissesse a mim mesmo: “foi naquele dia, naquela hora, que tudo começou.” E conseguiria – no passado, somente no passado – me aceitar.” ( p.253).


A experiência radical da negatividade - centro do pensamento existencialista - é a via de acesso a algumas verdades sobre a vida humana, que o autor lança mão, através do diário de Roquentin, para uma meditação filosófica. A Náusea foi o primeiro contato de Camus com Sartre. Em uma crítica sobre o livro, o considerou admiravelmente bem construído, mas com um desequilíbrio entre as idéias da obra e as imagens de que lança mão. Os diferentes modos de tratar a noção de absurdo trazem, no entanto, laços de família intelectual que unem escritores distantes filosoficamente como ambos. A tentativa de Roquentin vai, assim, ao encontro do pensamento de Camus, que dedica um capítulo- no já citado livro de ensaios- à análise do homem absurdo, e reserva para o artista criador, mais precisamente o escritor, a categoria de herói absurdo por excelência. Para ele, é através da criação que se rompe a tensão que separa o homem do mundo. E é o romance a tradução mais fiel no plano estético do espírito da revolta, representando para os homens um meio de viver a tragédia e a alegria, o amor e o ódio - mesmo quando este trata da nostalgia, do desespero e do inacabado ele está dando forma e unidade a uma experiência existencial. E tem, na descrição de cada experiência frustrante, uma tomada de consciência e, assim, a confrontação do absurdo.




BIBLIOGRAFIA


CAMUS, Albert. O Estrangeiro. 26. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005.

_____________. O Mito de Sísifo. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2006.

TURGUÊNIEV, Ivan. Pais e Filhos. São Paulo: Martins Claret, 2006.

DOSTOIÉVSKI. Crime e Castigo. São Paulo: Martin Claret, 2004.

_____________. Os Irmãos Karamazovi. São Paulo: Martin Claret, 2005.

_____________ . Os Demônios. São Paulo: Editora 34, 2004.

SARTRE, Jean-Paul. A Náusea. 12. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

BARRETO, Vicente. Camus - vida e obra. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

MACIEL, Luiz Carlos. Sartre - vida e obra. 5. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
PAIS X FILHOS: O CONFLITO


A necessidade de manter a tradição, de os pais imporem os elementos hierárquicos na educação dos filhos, encontra por vezes uma forte barreira na vontade da busca por caminhos originais e próprios de condutas por parte dos descendentes. A desavença entre pais e filhos tem, pois, sua gênese no tênue limiar entre as vontades de cada um. Elemento de degradação familiar, este conflito apresenta-se em discursos de diferentes gêneros. Desde as narrativas que tentam delinear o surgimento e formação humana: mitos gregos e histórias bíblicas cristãs, ou as tragédias com sua forma catártica de conscientização do ser até as narrativas contemporâneas que refletem a condição do ser atual, a rivalidade entre pais e filhos sempre se apresenta como um duelo, um conflito entre a tradição e o novo, a sabedoria da experiência e a imperiosidade da vontade.


Em Lavoura Arcaica (1989), Raduan Nassar narra a degradação de uma família a partir da saída e retorno do filho André à casa dos pais. Reprimido por não se adequar à conduta austera infligida a todos pelo patriarca, André sentindo-se diferente - ou por ser diferente devido a não adequação aos preceitos impostos pelo pai - deixa o lar e é resgatado pelo irmão, retornando ao convívio familiar.


Em uma narrativa não linear, acompanha-se, através das recordações e confissões de André ao irmão, Pedro, e, posteriormente, pelo seu retorno ao lar, seu desconforto em um ambiente regido pela força atávica da tradição. Guiando-se por uma conduta reta, calcada em bases fortemente religiosas, Iohána, o patriarca, conduz a família sob a conduta rígida do trabalho, amor à família e respeito aos pais e a Deus. Desde sempre se sentido à parte dessa conduta, André, o filho proscrito- como assim posiciona-se- mantem uma divergência aos ditames paternos, levando essa resistência aos limites da desobediência e desafio aos preceitos: familiares, sociais e religiosos. Assim, ele adota uma conduta secretamente marginal - que culmina com sua saída de casa -, apaixonando-se, inclusive, pela própria irmã, Ana - que finda assassinada pelo pai, em um acesso de cólera ao tomar conhecimento do sentimento incestuoso entre os filhos. E é assim se posicionando que André explode para o irmão a sua subversiva posição:


“... mas na corrente do meu transe já não contava sua dor misturada ao respeito pela letra dos antigos, eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina (a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu e só o meu ponto de vista...” (p.111).


O abandono do lar em busca de uma melhor adequação de si com o mundo e o acolhimento paterno, na volta, cheio de afeto e festejos, leva a uma identificação da obra de Raduan com a parábola O Filho Pródigo, analisada minuciosamente pelo filósofo Humberto Rohden, em Sabedoria das Parábolas (2005). Como o pai da parábola: “comamos e celebremos um festim; porque este meu filho estava morto, e ressuscitou; andava perdido, e foi encontrado” (p.21), também Iohána saúda a volta do filho com alegria: “... a alegria e júbilo nos olhos de meu pai, que dali a pouco haveria de proclamar para os que o cercavam que ‘aquele que tinha se perdido tornou ao lar, aquele pelo qual chorávamos nos foi devolvido’” (p.150).


Essa identificação, no entanto, se circunscreve apenas à saída e retorno da personagem. O que acontece entre o ir e vir de André em tudo difere do aprendizado necessário para ter feito de sua ausência uma aprendizagem de vida como aquela experimentada pelo jovem filho que abandona o pai em busca de vivência no mundo, narrada por Jesus nas parábolas bíblicas. Segundo Rohden, houve aprendizagem e amadurecimento nas experiências vividas pelo filho pródigo; sua volta, então, representa a conclusão de um aprendizado:

“... o ponto de sua volta não coincidiu com o ponto de sua partida; não fechou simplesmente um círculo, abriu uma grande espiral, cujo termo de chegada está imensamente acima do termo de partida (...) Entre a partida e a chegada houve uma gigantesca evolução – a jornada cósmica que vai da culpa através do sofrimento até a redenção” (p.25).


André, por outro lado, retorna com as mesmas convicções de sua partida. Buscado pelo irmão, deixa-se resgatar passivamente por ele. E logo fica claro para o pai que sua conduta continua paralela aos preceitos do lar: “Não foi o amor, como eu pensava, mas o orgulho, o desprezo e o egoísmo que te trouxeram de volta à casa!” (p.169). No confronto decisivo com o pai, rende-se, em uma lânguida entrega. Porém, permanece, intimamente, contrário à filosofia deste.


As noções de comportamento estabelecidas por Iohána contêm uma sabedoria secular, não só por ser enraizada nos sermões com teor religioso, mas por estar presente sempre a figura do avô. Em diversas passagens, a narrativa foca a importância deste como pilar da estrutura familiar, sugerindo uma continuidade da tradição e uma forma de aprendizado que só através dessa conduta atávica de aceitação da vida pode ser adquirida. A admissão do saber ancestral é recebida de forma pacífica e voluntária, e a perfeita convivência se dá pela obediência cega que filho devota ao pai:


“... na doçura da velhice está a sabedoria, e, nesta mesa, na cadeira vazia da outra cabeceira, está o exemplo: é na memória do avô que dormem nossas raízes, no ancião que se alimentava de água e sal para nos prover de um verbo limpo (...) nenhum entre nós há de apagar da memória a formosa senilidade dos seus traços; nenhum de nós há de apagar da memória sua descarnada discrição ao ruminar o tempo em suas andanças pela casa (...) cultivada com zelo pelos nossos ancestrais, a paciência há de ser a primeira lei desta casa, a viga austera que faz o suporte das nossas adversidades e o suporte das nossas esperas...” (p.60)



Forma milenar de explicação da formação do mundo e das origens dos seres, a mitologia grega se apresenta como forte referência de entendimento do comportamento humano. Em sua Teogonia (2003), Hesíodo canta o que poderíamos entender como registro primeiro da composição dos elementos que estruturariam o cosmos e a humanidade. Na base dessa genealogia, a desavença entre pai e filho se apresenta como fator fundamental da organização do posicionamento dos elementos primordiais do universo.

Urano, personificação do Céu, é um elemento fecundo na formação dos seres. Filho de terra (Geia), com ela uniu-se e teve inúmeros filhos. Esta, entretanto, cansada do abraço fecundo de Urano pediu aos filhos que a protegessem do esposo. Somente Crono aceitou a missão, e com uma “foicinha” que lhe fora dado pela mãe, cortou os testículos do pai, lançando-os ao mar, tomando depois o seu lugar no céu: “ Veio com a noite o grande Céu, ao redor da Terra desejando amor sobrepairou e estendeu-se a tudo. Da tocaia o filho alcançou com a mão esquerda, com a destra pegou a prodigiosa foice longa e dentada. E do pai o pênis ceifou com ímpeto e lançou-o a esmo para trás.” (p.115). Assim como seu pai, que a todos os filhos escondia mal estes nasciam, à luz não os permitindo, Crono, temendo o oráculo que predizia que um dos seus descendentes o destronaria, engolia todos os filhos que nasciam da sua união com Reia, sua irmã.

Mas, mais uma vez, através do ardil feminino aliado ao auxílio de um dos filhos, o pai é enganado, vencido e destronado por seu descendente. Fugindo para Creta, Reia, ao parir Zeus o esconde e entrega uma pedra envolta em panos para Crono, que não percebe o embuste. Zeus, crescido, droga o pai, forçando-o a vomitar os irmãos; estes unidos vencem o pai e os tios em uma luta que duraria dez anos, apossando-se totalmente e para sempre do poder, tornando-se o senhor absoluto do Olimpo:


“Tomando-a nas mãos meteu-a ventre abaixo
o coitado, nem pensou nas entranhas que deixava
em vez da pedra o seu filho invicto e seguro
ao porvir. Este com violência e mãos dominando-o
logo o expulsaria da honra e reinaria entre imortais.

Rápido o vigor e os brilhantes membros
do príncipe cresciam. E com o girar do ano,
enganado por repetidas instigações da Terra,
soltou a prole o grande Crono de curvo pensar,
vencido pelas artes e violência do filho.” (p.133)


Esse sucessivo destronamento dos pais pelos filhos só terminaria com a revelação de Prometeu, que com seus dons de adivinho conhecia o segredo do oráculo que revelaria de qual união nasceria o filho que tomaria o trono de Zeus, como mostra Ésquilo, na tragédia Prometeu Acorrentado (1997): “... Zeus há de se dobrar. Núpcias se preparam que do poder, do trono, o arrojarão (...) Zeus prepara seu próprio adversário, prodígio dificílimo na luta.” (p.169). Evitando a união com Tétis, Zeus evita o nascimento do sucessor que o destronaria.


Essa forma violenta de sucessão entre os mitos gregos nem sempre acontece voluntariamente. Povos veneradores dos deuses e seus auspícios, os gregos tinham na sua cultura a reverência e obediência aos augúrios divinos. Tementes aos tortuosos caminhos do Fado, aceitavam de bom grado as advertências dos oráculos. A concordância com os auspícios significava sorte e fortuna àqueles que seguiam suas indicações. Dentro dessa perspectiva, dois são os heróis que tiveram, ainda no ventre materno, o anúncio de um destino fadado à destruição do genitor: Páris e Édipo. Ambos, poupados da morte pelo amor paterno, foram condenados ao desterro, exilados assim da sua posição real e de sua terra natal. Criado como Alexandre, um pastor de ovelhas, Páris se inscreve em uma competição, mesmo desconhecendo sua origem nobre: sai vencedor e é recebido de volta com alegria por seu pai, o rei Príamo. Contrariando a profecia, o rei recebe aquele que traria a sua destruição e de sua família, reino e povo - já que seria Páris o causador da guerra que destruiria Tróia, império de sua família.


Com componentes mais complexos no que se refere à rivalidade natural entre pai e filho, o mito de Édipo discorre sobre a inevitável realização do destino. Assim como o de Páris, o nascimento de Édipo trazia o mau augúrio da desgraça paterna. Retratada com maestria por Sófocles em três magistrais tragédias, a maldição dos Labdácias segue por gerações. Em Édipo Rei (2002) a narrativa acompanha a saga do filho fadado a ser um parricida. Poupado do sacrifício previsto, Édipo é abandonado num despenhadeiro, recolhido e adotado como filho por Políbio, rei de Corinto. Já adulto, toma conhecimento de sua pré-destinação: o duplo crime de matar seu pai e desposar a própria mãe. Tentando evitá-la, foge dos pais adotivos e assim, involuntariamente, caminha para a realização do oráculo. Perto de Tebas, cruza com um viajante ( Laio, rei de Tebas e seu pai), discutem e acaba por assassiná-lo. Estava cumprida a primeira parte da profecia. Édipo desvenda o segredo da esfinge que ameaçava a cidade, casa-se com Jocasta, a rainha - desconhecendo ser ela sua mãe - e, juntos, têm quatro filhos. A descoberta só aconteceria anos depois, na tentativa de descobrir o assassino de Laio (o rei assassinado) e assim livrar Tebas da maldição que lhe assola em forma de desgraças. Édipo segue incessantemente as pistas que o levaria a se descobrir na posição de criminoso, por parricídio e incesto. É através do vaticínio do adivinho Tirésias que a revelação vem à tona:


“... Afirmo-te, pois: o homem que tanto procura, com ameaças e proclamações, está aqui! Passa por estrangeiro, mas logo se verá que é tebano de nascimento, e tal descoberta lhe será fatal. Agora enxerga, mas cego se fará; é rico, e acabará mendigo; seus pés o levarão à terra do exílio, tateando o caminho com seu bastão. Ver-se-á ser ele, ao mesmo tempo, irmão e pai de seus filhos, filho e esposo daquela que lhe deu a vida, profanador do leito de seu pai, a quem tirou a vida.” (p.42).


Após o conhecimento do incesto, Jocasta comete o suicídio e Édipo fura os olhos. Em Édipo em Colono (2005), Sófocles apresenta a personagem já idosa, maltrapilha e exilada (exatamente como previra Tirésias), tendo como guia a filha Antígona e buscando abrigo do rei Teseu, em Colono. Expulso pelo filho Polinices, quando este estava no trono, Édipo tem agora o oráculo que o dispõe como proteção para a cidade que abrigar seus despojos humanos. Traído pelo irmão Eteócles, Polinices, prestes a invadir Tebas, busca a retirada da maldição paterna. Vítima da maldição que anos antes fora proferida contra seu pai, Laio, Édipo passa-a adiante alimentando o ódio entre si e seus filhos:


“Tais maldições já as pronunciei antes contra vós e invoco-as agora em meu auxílio, para que aprendais a reverenciar os vossos progenitores e não reputeis coisa indigna ser filhos de um homem cego, sendo vós tais filhos (...) Tu vai-te, maldito, de quem não sou pai! Recebe, malvado dos malvados, estas maldições que eu impreco contra ti: nunca possas conquistar com a lança a terra pátria, nem regressar jamais às planícies de Argos, antes morras às mãos de teu irmão e mates aquele por quem foste banido!” (p.96).


A maldição paterna é confirmada: Eteócles e Polinices matam um ao outro. Creonte, irmão de Jocasta, passa a ser o soberano, honrando o primeiro com honras fúnebres e punindo o segundo (pela traição ao invadir a pátria mãe) com a privação destas. A desobediência de Antígona - que, contra o édito real, propicia um funeral ao irmão, sendo assim condenada à morte - é o mote principal de Antígona (2002), também de Sófocles. No entanto, o confronto maior acontece entre Creonte e seu filho Hêmon. Este, não aceitando a condenação da prima e noiva, resiste ao despotismo paterno em um confronto que chega à morte. Porém, por um viés inverso ao de Édipo: o suicídio. Em um momento de obediência passiva, Hêmon aceita o rompimento de seu noivado, agraciando a alma paterna. Porém a dor que seu ato impugiria ao pai desmereceria as palavras deste:


“Tuas palavras mostram prudência, meu filho, que é preciso guardar no coração! A vontade paterna tudo nos provê. A grande razão que gera nos homens o desejo de que nasçam e cresçam em sua casa novos rebentos é a certeza de que estes, crescidos, combatam o seu inimigo e honrem o seu amigo, tal como o pai o faria. Aquele que tiver filhos inúteis apenas terá angariado para si motivos de desgosto, e para seus inimigos, motivos de zombaria. Não abandones, pois, meu filho, seduzido pelo prazer, ou por causa de uma mulher, os sentimentos que te animam... (p.103).


A resistência aos preceitos paternos, entretanto, nem sempre acontece de forma tão trágica. Mário de Andrade, em Melhores Contos (2000), no conto Peru de natal, através de um texto recheado de ironia, narra a grande vingança de Juca à memória da conduta rígida e austera na qual o pai trazia à família. O ato subversivo se caracteriza pelo prazer de proporcionar aos seus a alegria de saborear um peru na noite natalina. Prazer tão maior quando somado a satisfação de contrariar e apagar a imagem paterna. A afronta ao pai, que não se realizou em vida, acontece à sua memória. A vingança de Juca se dá na forma como pretende, doravante, conduzir os seus: oposta à seguida pelo finado pai. Numa das passagens mais sarcásticas do texto, o morto é comparado, aos olhos do filho, ao peru da ceia, ficando em franca desvantagem:


“Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora (...) Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentem,ente o partido de meu pai. Fingi, triste...” (p.139).


A desobediência filial ganha contornos fantásticos na insólita história O Barão sobre as árvores (1997), de Italo Calvino. Em uma trivial discussão com o pai à mesa, o jovem barão Cosme Chuvasco de Rondó se rebela contra o Sr. Barão e, em uma atitude tipicamente infantil, sobe para o cimo de uma árvore e, contra as ordens do pai, exclama que dali não descerá mais. Assim passa a viver sobre as árvores e de lá não desce nem depois de morto. Essa forma alegórica, que Calvino utiliza na obra, denota a dificuldade que existe na assimilação da geração vindoura dos preceitos passados por seus progenitores. Cosme, ao negar obediência ao pai, se aventura em uma nova experiência, inusitada e, até então, inviável. No entanto, cria uma nova conduta de vida, prova que pode se subsistir independente dos laços paternos. O pai, no entanto, permanece preso à cultura de seus antepassados, dificultando ainda mais a sua interação com seu tempo e o comportamento do filho:


“Mas agora, estando à mesa com a família, tomavam corpo os rancores familiaresm capítulo triste da infância (...) Começou uma série de berros, de birras, de castigos, de teimosias, até o dia em que Cosme recusou os escargots e decidiu separar sua sorte da nossa. Desse acúmulo de ressentimentos familiares só me dei conta depois: naquela época eu tinha oito anos, tudo me parecia um jogo, a guerra dos meninos contra os adultos era a de sempre, a de todos os moleques não percebia que a teimosia de meu irmão era algo de mais profundo.” (p.116).


Obediência e desobediência aos preceitos paternos ganham contornos sagrados naquela que talvez seja a representação máxima das conseqüências negativas da conduta transviada ao caminho reto mostrado pelo progenitor: o pecado original. Em Paraíso Perdido (2002), John Milton retrata, em forma de epopéia, a queda do homem do paraíso que traria conseqüências até os dias de hoje, devido à desobediência do primeiro filho. Adão e Eva, os primeiros humanos, filhos do Pai eterno, tiveram, por Ele concedido, o livre arbítrio e só uma proibição: era-lhes negado comer do fruto da árvore da sabedoria. Tentada pela serpente, Eva come do fruto proibido e leva Adão a cometer o mesmo ato. São castigados por Deus numa sina que se estende a toda sua descendência: “Bem sabiam os pais da estirpe humana, e recordar-se deveriam sempre, o preceito que o fruto lhes vedava, seja quem for o que comê-lo os inste – e que a desobediência os punha incursos na pena...” (p.358).


Porém, é graças a um ato máximo de bondade e submissão ao Pai, que ambos ficam isentos da morte. Assim, o filho de Deus, propõe pagar pelos pecados do casal. Na maior representação de desprendimento em nome do amor, o pai entrega o filho ao sofrimento - que aceita de bom grado a missão. O filho desce à terra encarnado na pele de Jesus, é crucificado, morto e ressuscita para ficar à destra do pai, confirmando a posição do filho que obedece à conduta e segue-a imposta pelo pai como a mais aceitável, louvável e repleta de prosperidade para o ser:


“Decretar-te pertence; ó Pai eterno,
E a mim, tanto nos Céus como no Mundo,
Cumprir tua vontade soberana,
De maneira que sempre em mim tu possas
Descansar plenamente satisfeito,
Em mim que sou teu filho muito amado.
Vou da Terra julgar os transgressores:
Mas tu bem sabes que, no próprio tempo,
O maior peso da sentença sua,
Seja qual for, em mim recair deve:
Diante de ti comprometi-me a tanto.” (p.360)


Assim, em um exemplo único, tomado como modelo de conduta, a postura do filho de Deus se mostra isolada do comportamento recorrente entre os filhos. Dispostos a impor sua condição e exercer sua liberdade, a geração vindoura rompe os preceitos paternos e busca assim delinear sua personalidade na tentativa de condução do caminho por meios e estilos próprios. A ausência de experiência por parte dos filhos e a inflexibilidade na postura por parte dos pais tornam esse rompimento sempre conflituoso, mostrando que a ausência de diplomacia no trato entre as gerações, a falta de diálogo e de flexibilidade supõe um choque que tende a se estender e que por vezes se faz necessário na formação do caráter dos filhos.



BIBLIOGRAFIA


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ROHDEN, Huberto. Sabedoria das Parábolas. São Paulo: Martin Claret, 2005.

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SÓFOCLES. Édipo Rei / Antigona. São Paulo: Martin Claret, 2002.

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ANDRADE, Mário. Melhores Contos. 8.ed. São Paulo: Global, 2000.

JOHN, Mílton. Paraíso Perdido. São Paulo: Martin Claret, 2002.

GRIMAL, Pierre. Dicionário da Mitologia Grega e Romana. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.
Maurice: a completude do amor


As dúvidas e dificuldades que permeiam a tentativa dos casais de manter um relacionamento e levar em frente o ideal romântico de viver um grande amor ganham contornos e impedimentos a mais quando se trata da forma peculiar de amar um ser do mesmo sexo. À parte as questões externas, como cobranças familiarares, sociais, de ordem moral ou religiosa, o indivíduo se vê diante da difícil decisão de aceitar a si como alguém à margem do comportamento padrão e, da não menos árdua tarefa, de ter o direito a exercer essa diferença. A falta de identificação com o mundo (que o rodeia) e a sensação de isolamento exacerbam o sentimento de solidão e a descrença na possibilidade de realização do amor. Essas questões que permeiam o amor entre homens trazem sempre elementos fortes que originam narrativas dramáticas, em que a busca do sentimento e da complementaridade sempre se efetiva, mas nem sempre atinge seu objetivo.


Maurice (2006), de E.M.Forster, narra a trajetória do jovem britânico estudante de Cambridge, Maurice, na Inglaterra do início do século XX, em meio aos seus questionamentos acerca de si e sua forma particular de buscar o amor. Com a perda precoce do pai, Maurice cresce entre a mãe e duas irmãs. Nesse mundo sem referencial masculino, é incitado a percorrer os passos do pai, e segue para Cambridge. Já consciente de suas diferenças, carrega a culpa e o medo dos que se sentem à margem da conduta padrão. Na universidade, conhece Clive e vive com ele um relacionamento platônico por três anos, quando este o abandona por descobrir uma atração por mulheres. Expulso da universidade, entra no mundo dos negócios de investimento. Paralela a essa vida burguesa, vive os tormentos de um desejo que não pode ser concretizado e que não é aceito pela sociedade. Por fim, passa a manter um relacionamento com Alec, guarda-caças de Clive. O romance acompanha a trajetória desse jovem angustiado pela sua diferença, sua auto-rejeição, sua tentativa de se entender e se encaixar em um mundo que aparentemente não foi feito para seres como ele.

Muitos são os autores que tratam da homossexualidade no campo literário. Diferentes épocas com diferentes situações são abordadas para mostrar que, quase sempre, a incompletude é predominante no amor entre iguais. Desde a antigüidade até os dias atuais, as narrativas que abordam o tema evidenciam a presença de fatores que impedem a completude desse tipo de relação. Seja por questões morais, sociais, religiosas ou até mesmo de morte, o fato é que o amor entre homens é, na literatura, fadado ao fracasso.


Em Memórias de Adriano (2005), Marguerite Yourcenar apresenta uma narração em primeira pessoa - na forma de carta-testamento - do imperador Adriano, que viveu no século II, para Marco Aurélio, o futuro imperador-filósofo. Adriano é retratado como governante ideal, admirador da cultura grega, protetor das artes e político preocupado com a vida dos escravos. No entanto, é a história de amor entre ele e o escravo grego Antínoo o foco da biografia romanceada. Sua posição e sua resistência à entrega fizeram com que não correspondesse aos anseios do jovem e apaixonado grego. Este, num ritual egípcio, temendo o momento da preterição, se mata, no auge da perfeição física, aos vinte anos, e perpetua sua condição de amante único na memória de Adriano.

Nesta obra, a morte acontece como impedimento maior, numa sociedade que não se escandalizava com a relação carnal entre homens: “Pouco importava que, terminado o dia, o imperador se entregasse à libertinagem de caserna em companhia dos jovens em quem encontrava atrativos ou beleza.” ( p.85). É, após a morte do amado, que Adriano entende a importância que este tinha em sua vida. Sublima-se, assim, o amor pelo mancebo grego. Anos após a morte de Antínoo, quando já no estado de enfermidade que o levaria à morte, Adriano recebe de Arriano, um dos seus governadores, uma carta que narra a sua passagem pela ilha que seria conhecida como: a ilha de Aquiles. Os habitantes da ilha acreditam que o grande herói da guerra de Tróia aparece aos navegantes, advertindo-os e protegendo-os dos perigos do mar. Em determinado trecho da carta, Arriano diz:


“O próprio Aquiles aparece em sonhos aos navegantes que visitam essas paragens. (...) E a sombra de Pátroclo aparece sempre ao lado de Aquiles. (...) Aquiles parece-me por vezes o maior dos homens, pela coragem, pela força da alma, pelos conhecimentos do espírito unidos à agilidade do corpo, e por causa do ardente amor do jovem companheiro. Nele, nada me parece maior do que o desespero que o levou a desprezar a vida e desejar a morte quando perdeu o bem-amado.” (p.262).


Um ardoroso admirador da cultura grega, Adriano vê nas linhas do companheiro um presente: “oferece-me um dom necessário para morrer em paz. Envia-me uma imagem da minha vida tal como eu teria querido que ela fosse.” (p.262). Diante dos fatos ouvidos, ele vê a possibilidade de tornar imortal seu amor e imagina sua vida com o companheiro morto. A imagem maior do amor que se consolida eternamente através da morte é discutida por Sócrates no Banquete (2003), de Platão. No seu discurso, Fedro entende que morrer um pelo outro é um ato que só é digno dos que verdadeiramente amam. Tal fato se comprova na glória maior de Aquiles, a quem os deuses cumularam de dignidades e enviaram à ilha dos Bem-aventurados: ”Se verdadeiramente os deuses sabem apreciar a força que nasce do amor, mais admiram e recompensam se é o que ama que se sacrifica pelo que é amado” (p.106).


A impossibilidade de juntar alma e corpo na consolidação do amor em vida também se mostra improvável por Manuel Bandeira nos versos do poema A arte de amar. Segundo o poeta modernista, o amor só poderia acontecer através da relação carnal. O encontro das almas só aconteceria fora deste mundo, ou numa junção espiritual com o divino. Como Aquiles com Pátroclo, Adriano teria com Antínoo, após a morte deste, a eterna ligação. O amor de ambos se encontraria assim livre de impedimentos. A morte seria a libertação, como preconizam os versos do poeta:


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação,
Não noutra alma.
Só em Deus – ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.

Deixa teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


Em Maurice, Platão e o seu Banquete aparecem como a base da relação incomum que se firma entre os dois jovens britânicos. Clive acreditava na contenção platônica: “Mas sem dúvida... a única desculpa para qualquer relacionamento entre homens é que este se mantenha puramente platônico” (p.248), e induzia Maurice, de natureza humilde, inexperiente e devotada, a aceitar a castidade. A relação assim se mantem por três anos, até que Clive descobre o seu interesse por mulheres. Separados, Clive encontra em Anne a esposa fiel e condescendente, a companheira ideal para um casamento nos moldes burgueses da época, puritano e hipócrita. A experiência com Maurice fica, então, atribuída à imaturidade e ele assume a relação heterossexual, contentando-se com o que ela representa socialmente, já que não há verdadeira sintonia dos desejos, sequer a intimidade comum a todo casal:


“Ele nunca a vira despida nem ela a ele. Ignoravam as funções reprodutivas e digestivas. Por isso jamais abordaria aquele episódio de sua imaturidade. Era algo que não podia ser mencionado. Não estava entre ele e ela. Ela é que estava entre ele e o episódio, e, pensando bem, não se ressentia disso, pois, embora não tivesse sido vergonhoso, fora um caso sentimental e merecia o esquecimento.” (p.167).


A fuga do desejo sexual por outro homem encontra no casamento heterossexual a perfeita acolhida. A priori, a satisfação do cumprimento da obrigação exigida pela sociedade e pela igreja de estabelecer família e preservar a espécie mostra a união ortodoxa como uma purgação da luxúria - forma assim entendida do desejo por companheiros do mesmo sexo. Em Giovanni (1987), James Baldwin narra o drama de David, americano de infância conturbada e vida adulta incerta que, na ausência da noiva, descobre um mundo fortuito na Paris da primeira metade do século XX. Entre tipos decadentes, homossexuais afetados e uma vida de boêmia desregrada, David conhece Giovanni, um italiano que trabalha como barman e passa incólume pelos apelos e tentativas de aliciamento da clientela e do patrão. Vive com ele uma grande paixão. No entanto, não suportando a intensidade do sentimento que mexe com os frágeis alicerces de sua condição, acaba, depois de muito hesitar, escolhendo o noivado com Hella. A insegurança de um mundo e forma de vida não de todo compreensível por David, reforça a sua decisão: “O animal que Giovanni despertara em mim jamais voltaria a dormir, mas um dia eu não mais estaria com Giovanni. E ficaria então, como todos os outros, a voltar e acompanhar todos os tipos de rapazes, rumando para avenidas escuras e ignotas, indo a lugares escuros e desconhecidos?” (p.90).

Neste caso, a dificuldade de manter a relação, por ser homossexual, é agravada pela questão social. Giovanni é pobre e sem instrução. Sem condição de aceitar sua situação, David, mesmo apaixonado pelo italiano, o abandona. O curioso é que Giovanni, que vinha de um casamento marcado pela tragédia da perda do filho, aceita por completo o amor que se lhe apresenta, mesmo sendo essa sua primeira experiência homossexual, enquanto David opta pelo fingimento do casamento, em uma atitude hipócrita e covarde (que trará como conseqüência a degradação de Giovanni até a morte), como mostra o desabafo de Giovanni:


“- Você quer deixar Giovanni porque ele faz você cheirar mal. Quer desprezar Giovanni porque ele não tem medo do fedor do amor. Quer matá-lo, em nome de todas as suas pequeninas e hipócritas moralidades. E você... Você é imoral. Sem comparação é o homem mais imoral que conheci em minha vida. Olhe, olhe o que fez de mim! Acha que poderia ter conseguido isto se eu não o amasse! É isto o que deve fazer ao amor?” (p.148).


As conseqüências da opção pelo casamento heterossexual é, por um outro viés, o tema abordado por Marguerite Yourcenar, em Alexis ou o tratado do vão combate (1971), romance epistolar em que o personagem título confessa, numa pungente e extensa carta à sua esposa, sua incapacidade de manter um casamento em que a desonestidade e a falta de desejo são proeminentes. Numa narrativa que aborda desde a gênese da sua descoberta sexual, Alexis mostra as dificuldades de aceitação do eu e os conflitos provenientes de suas preferências sexuais em um mundo voltado para o comportamento ortodoxo. Acreditando sofrer de uma doença passageira, ele se entrega ao casamento na esperança sincera de combater o que ele acreditava ser um vício: “Nunca, nem mesmo nos momentos do mais completo abandono, acreditei que minhas preferências anteriores fossem definitivas, ou simplesmente duráveis” (...) “Acontecia-me sonhar que uma jovem muito meiga, afetuosa e equilibrada, conseguiria um dia ensinar-me a amá-la” (p.98). Após alguns anos de angustiante tentativa, Alexis compreende que, como bem mostra o subtítulo da obra, o seu combate é vão. Percebe que seu erro incutia não nas vezes em que sucumbiu ao desejo, mas sim nas inúmeras tentativas de renegá-lo, renegando, assim, a sua essência e quase destruindo completamente sua integridade. Ciente do erro e suas conseqüências, e decidido a enfrentar a sua situação, termina o relacionamento através da carta que assim é concluída:


“Termino por lastimar-te sem, contudo, condenar-me severamente. É certo que te traí, mas não quis enganar-te. (...) Não tendo podido viver segundo os preceitos da moral estabelecida, procuro, pelo menos, estar de acordo com a minha própria. No momento em que decidimos renegar todos os princípios, é conveniente que conservemos, no mínimo, os escrúpulos. Assumi para contigo compromissos imprudentes que deveria ter mantido por toda a vida. Peço-te humildemente, o mais humildemente possível, perdão. Não por te deixar, mas por ter ficado por tanto tempo.” (p.124).



Já no romance de Forster, o rompimento que se dá é entre parceiros do mesmo sexo. Maurice, após o doloroso abandono por parte de Clive, percebe que a dor que sente é menos pelo rompimento da paixão do que pelo desesperador sentimento de ter sido novamente relegado à solidão. Ao encontrar um companheiro, tinha encontrado mais que a satisfação do amor correspondido, tinha encontrado um igual. Não era mais sozinho na condição que se lhe tinha sido imposta. Encontrara em Clive o que todos que vivem à margem buscam: alguém para dividir o fardo da diferença


”Ele continuou a viver, miserável e não compreendido, como antes, e cada vez mais solitário. Nunca é demais enfatizar essas palavras: a solidão de Maurice recrudesceu.” (p.146).

“Sim: no cerne de sua agonia estava a solidão. Por não ter o raciocínio rápido, levara algum tempo para perceber isso. O ciúme incestuoso, a mortificação, a fúria contra sua antiga estupidez – essas coisas acabariam passando e, após terem causado muito dano, de fato passaram. As lembranças de Clive também ficariam para trás. Mas a solidão continuaria. Ele acordaria e exclamaria, engasgado, “Não tenho ninguém!”, ou “Ah, Deus, que mundo!”.(p.141)


O sentimento de solidão se exacerba com a ilegalidade da condição de homossexual em um país que vê esse tipo de relacionamento como criminoso. Maurice, na tentativa de se livrar da “doença”, busca ajuda na medicina e até na hipnose, mas o máximo que consegue é um conselho para mudar de país, visto que a Inglaterra via esse tipo de relacionamento como crime. Ficção se confunde com realidade quando em algumas passagens da obra o nome de Oscar Wilde é citado: “Diga-me, em suas caminhadas por aí, você encontra tipos imencionáveis, da laia de Oscar Wilde?” (p.159). Wilde, escritor inglês, foi condenado pela justiça inglesa sob a acusação de homossexualismo após o escandaloso caso em que se envolveu com Lord Alfred Douglas. Em De Profundis (2004), carta escrita a Douglas, em sua temporada na prisão, e somente publicada após sua morte, o escritor narra a história “do amor que não se atreve a pronunciar o seu nome” que lhe trouxe a execração pública e culminou com sua sentença de prisão e trabalho forçado.


Essa aura de clandestinidade que cerca o mundo homossexual é retratada com maestria pelo escritor norte-americano Gore Vidal. A inicial busca pueril por um amor seguida de desencontros e decepções que levam o jovem a uma decadência moral e inevitável banalização do sexo, por vezes caindo na prostituição e no crime, é retratada em obras como o romance A Cidade e o Pilar (1989) e o livro de contos Um momento de louros verdes (1986). Na primeira, acompanha-se a busca de Jim por Bob, amigo de adolescência com quem teve um momento de intimidade sexual tão marcante que o acompanharia por toda a vida, até a dolorosa realidade do encontro entre ambos. Na tentativa do reencontro com o seu ideal adolescente de amor, Jim adentra o mundo homossexual que se desenrolava paralelamente nos Estados Unidos à época da Segunda Guerra Mundial. No livro de contos, Vidal retrata, de forma ácida, a conseqüente esterilidade do ser quando tem a possibilidade do sonho amputada. Esse desvio de conduta tem seu teor exacerbado quando o retrato da degradação moral é refletido na também degradação física. A perspectiva de uma velhice decadente, vivida de forma desonrosa e repugnante, distante da felicidade com um parceiro inicialmente contemplada, é também o impulso desesperador que leva Maurice, personagem de Forster, a tentar livrar-se de vez do “vício” que o corrompe. Uma experiência grotesca no trem foi o mote decisivo para a radical decisão:


“Estava ruminando com ar mal-humorado e sua expressão despertou suspeitas e esperanças no único outro passageiro que havia no vagão. Esse homem, corpulento e de rosto oleoso, soltou um suspiro cobiçoso, e Maurice, desprevenido, correspondeu. No momento seguinte, ambos se levantaram. O outro sorriu, o que fez Maurice derruba-lo com um soco. Foi duro para o homem, que era mais velho e cujo nariz sangrava sobre a almofada, e ainda mais duro, pois agora fora tomado pelo pavor de que Maurice puxasse o cordão de alarme. Ele vomitou desculpas e ofereceu dinheiro. Maurice, postado diante dele com o sobrolho cerrado, contemplou o próprio futuro naquele repugnante e desonroso retrato da velhice.” (p.158)


O medo da solidão encontra-se também presente no amor entre homens visto pela ótica do prazer sensual, foco do romance Querelle (1986), de Jean Genet, que narra as aventuras do marinheiro Querelle entre o bordel “La Féria” e o porto de Brest. Sedução e violência convivem em um ambiente lascivo de drogas e crimes. Ladrão, escritor e homossexual, Genet - que escreveu maior parte de sua obra na cadeia e foi condenado à prisão perpétua - transforma sua experiência de vida numa fascinaste narrativa literária, na qual homossexualidade, degradação e opressão sexual convivem num ambiente de crime e marginalidade. Em Querelle, o amor é efêmero, busca saciar o desejo físico, sórdido, não hesita em ser comprado, ilusório; por momentos vivencia-se, mesmo que falsamente, a satisfação da posse, o que não tira a essência maior da busca deste: o desejo de companhia. Em determina passagem, o narrador descreve a busca do prazer como uma forma velada de fuga da solidão:


Para os marginais que pego em meus braços, meu carinho e meus beijos apaixonados nas cabeças que acaricio, que recubro suavemente com meus lençóis, são apenas uma espécie de reconhecimento e admiração misturados. Depois de tanto ter me afligido com a solidão na qual me guarda minha singularidade, poderá ser, será possível que eu segure nu, que retenha apertados em mim esses rapazes, cuja audácia e dureza erguem tão alto, me derrubam e me pisoteiam? (...) Esse olhar severo, por vezes até quase desconfiado, de justiceiro mesmo, que o pederasta detém sobre um rapaz bonito que encontra, é uma breve mas intensa meditação sobre sua própria solidão. (p.11)



Em Bom Crioulo (2002), de Adolfo Caminha, romance naturalista que também relata de forma crua o mundo dos marinheiros e suas relações entre si, a atração entre iguais é justificada pelo determinismo, corrente científica que permeou o pensamento da época. Amaro sente-se atraído por Aleixo, faz-se seu protetor e amante, levado pelos impulsos da carne, como a satisfazer uma tara. Há desejo, contemplação do ser amado, mas a relação se efetiva mesmo no plano físico. O Marinheiro desenvolve um sentimento de posse e finda por matar o amante não por ciúme, mas por vingança já que não aceita a traição. A relação acontece pelo desejo de satisfação instintiva: “... era uma perseguição de todos os instantes, uma idéia fixa e tenaz, um relaxamento da vontade irresistivelmente dominada pelo desejo de unir-se ao marujo como se ele fora de outro sexo, de possuí-lo, de tê-lo junto a si, de amá-lo, de gozá-lo!...” (p.34).


Já em Maurice, os sentimentos afloram e resistem, a despeito de tudo. Medo da solidão, sentimento de incompreensão, resistência aos seus desejos são sentimentos que perseguem o protagonista quando este aceita o convite de Clive para uma temporada no campo. Lá, onde ele menos espera, em quem menos suspeitaria, no guarda-caças da propriedade, Alec, Maurice encontra o companheiro ideal, sua complementação. O preconceito pela diferença de classes supera todos os medos anteriores, e Maurice não consegue ver na sua ligação com o empregado mais que um erro. No entanto, o sentimento fala mais alto e ele decide tudo arriscar:

“... então se virou para a Inglaterra. Sua jornada estava quase no fim. Partia para seu novo lar. Havia despertado o homem que havia em Alec e agora era a vez de Alec despertar o herói que havia em Maurice. Sabia qual era sua missão e que resposta devia dar. Deviam viver num mundo sem classes, sem parentes ou dinheiro; deviam trabalhar e não renunciar ao outro até a chegada da morte. Mas a Inglaterra lhes pertencia. Isso, de par com a camaradagem, era a sua recompensa. Eram deles o ar e o céu ingleses, não dos tementes milhões que possuíam caixinhas abafadas no lugar da própria alma. “ (p.243)


Num final eminentemente romântico, Maurice e o companheiro são contemplados com a felicidade, ou pelo menos com a tentativa dela. Indo contra todas as adversidades, a obra sugere a possibilidade de vencer os obstáculos, uma vez que encontrariam no outro a força necessária, numa ode que reverencia àqueles que realmente acreditam no amor e o reconhecem quando este se lhes apresenta. O final sugere a possibilidade de uma vida digna para os que amam um companheiro do mesmo sexo. Mostra a dificuldade, mas contempla a possibilidade. Estariam à margem, mas estariam nela juntos. Maurice e Alec não ousaram dizer o nome de seu amor, mas foram além, ao atreverem-se a vivê-lo.



BIBLIOGRAFIA


FORSTER. E. M, Maurice. São Paulo: Globo, 2006.
YOURCENAR, Marguerite. Memórias de Adriano. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

_______________________. ALEXIS ou o tratado do vão combate. 4.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1971.

BALDWIN, James. Giovanni. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.

GENET, Jean. Querelle. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

VIDAL, Gore. A cidade e o pilar. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

__________. Um momento de louros verdes. 2.ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

BARBOSA, Francisco de Assis. In: Melhores poemas de Manuel Bandeira. 15.ed. São Paulo: Global, 2003.

WILDE, Oscar. De profundis. São Paulo: Martin Claret, 2004

PLATÃO. Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2003.

CAMINHA, Adolfo. Bom - Crioulo. São Paulo: Martin Claret, 2003.